Orientações do blog

Orientações do blog:
· Produção de textos curtos (relativamente à densidade e prolixidade que pretende resumir) a fim de proporcionar um acesso mais dinâmico ao conteúdo.

· Linguagem acessível a público não-especializado, porém procurando manter expressões-chaves do autor considerado.

· Direta transmissão do conteúdo, preservando tanto a idéia central quanto as periféricas, em detrimento de palatáveis efeitos de retórica.

· Difusão de conhecimento na área de Humanas a fim de desmistificar o academicismo, promover debates e mais conhecimento.

· O blogue retomou as atividades em 2015 e tentará manter uma regularidade de publicação todo sábado.

terça-feira, 20 de julho de 2010

A OBRA DE ARTE NA ERA DE SUA REPRODUTIBILIDADE TÉCNICA

[Modern Times, EUA 1936
Charles Chaplin]

Walter Benjamin
A OBRA DE ARTE NA ERA DE SUA REPRODUTIBILIDADE TÉCNICA
Primeira versão


Fichado por Alisson Gebrim Krasota

Uma vez que a superestrutura se modifica mais lentamente, as condições de supressão do capitalismo virão de sua base econômica. Sendo assim, tanto as tendências evolutivas da arte quanto sua forma de percepção dependem das condições produtivas.

Originariamente, a função social da arte foi atrelada ao seu valor de culto, pois a arte nasce inserida em ritual mágico-religioso. Atualmente, mesmo nos rituais secularizados da arte pela arte, é este fundamento teológico que justifica os critérios de aura e autenticidade reivindicados pela arte.

A autenticidade é a quintessência de tudo o que foi transmitido pela tradição, a partir da origem, desde sua duração material até o seu testemunho histórico. A aura é a aparição única e distante da obra.

Os gregos foram quem marcaram a evolução artística e a imbuíram deste valor de eternidade em suas obras, pois só conheciam duas técnicas de reprodução: o molde e a cunhagem.

A obra de arte só foi reproduzida tecnicamente e em massa, com o advento da xilogravura, seguida pela litografia, logo ofuscada pela fotografia. A fotografia altera a natureza da arte, pois é uma obra de arte criada para ser reproduzida.

É com a reprodutibilidade técnica que a função social da arte deixa de ser ritual para ser política. O valor de culto (onde o que importava era a existência das imagens e não sua visualização) é substituído pelo valor de exposição, que é a exponibilidade da obra, fundada na evolução técnica e custeada retroativamente por sua difusão em massa.

A reprodutibilidade técnica escapa à esfera da autenticidade e aniquila a aura das obras, desencadeando crises nas artes tradicionais. Estas crises são inerentes, pois toda forma de arte aspira a efeitos só possíveis sob uma nova forma de arte, que os realiza facilmente. O dadaísmo tentou produzir efeitos que o público hoje procura no cinema. Os dadaístas aniquilavam impiedosamente a aura de suas criações, transformando a obra de arte no centro de um escândalo. Seu caráter onírico abriu caminho à percepção tátil (lugares e ângulos) do cinema.

O cinema pode ser tomado como parâmetro para comparar as demais formas de arte:
a) Em relação a arquitetura, esta comporta uma forma a mais de recepção: além da percepção, também pelo uso.
b) A respeito da pintura, a concepção medieval do quadro era para visualização restrita, ao contrário do cinema, que só é economicamente viável se for concebido para as massas. Além disso, o pintor, ao manter uma distância natural com a realidade, produz uma descrição desta menos significativa que o cinema para o homem moderno, uma vez que a intervenção técnica cinematográfica produz uma realidade mais real que o real.
c) No tocante ao teatro, onde cada apresentação possui nuances de representação, o cinema, com o auxílio de um grêmio de especialistas, usa os aparelhos a serviço do ator, na otimização da fragmentada representação deste, que afirma sua humanidade diante da máquina, ao mesmo tempo em que se volatiza na transportabilidade de sua imagem à recepção das massas.

Sobre a recepção, afirma-se que as massas procuram na obra de arte distração, enquanto o conhecedor a aborda como recolhimento. Se esta distração pode ser positiva com a hilaridade coletiva das psicoses das massas, por outro lado há também a corrupção fascista da consciência das massas no estrelato do ator, nos episódios grotescos e na crise da democracia pelo modo de exposição do político. “A reprodução em massa corresponde de perto à reprodução das massas.” (BENJAMIN, p. 194)

A guerra é por excelência a fascista estetização da política, pois dá um objetivo aos movimentos de massa, mobiliza em sua totalidade os meios técnicos do presente e preserva as relações de produção existentes. “A guerra é a forma mais perfeita do art pour l’art. Sua auto-alienação atingiu o ponto que lhe permite viver sua própria destruição como um prazer estético de primeira ordem [...] O comunismo responde com a politização da arte.” (BENJAMIN, p.196)

1935/1936


Referência Bibliográfica:
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994. pp. 165 - 196.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Cidadania e Capitalismo: uma crítica à concepção liberal de cidadania.

[Charles C. Ebbets
Lunch on a skyscraper; 1932]

Cidadania e capitalismo: uma crítica à concepção liberal de cidadania
Décio Saes

Fichado por Alisson Gebrim Krasota

É a partir do conceito de cidadania desenvolvido por Marshall, que Décio Saes faz uma crítica da democracia capitalista. Por cidadania, Marshall entende a participação integral do indivíduo na sociedade. Esta participação supõe que o indivíduo-cidadão goze de direitos civis, políticos e sociais, sendo os direitos civis referentes à liberdade de efetivar atos de vontade, como os contratos; os direitos políticos a liberdade de associação, incluindo a possibilidade de eleger seus representantes ou tornar-se representante elegível; por direitos sociais o acesso mínimo de bem-estar e segurança materiais.

Por falta de rigor científico, Marshall permite inferir que o caso inglês, analisado por ele, seja modelo para uma teoria geral de cidadania. Segundo Marshall, com a junção das instituições no plano geográfico e a separação das instituições no plano funcional, o ordenamento jurídico medieval que reconhecia legalmente a hierarquia entre classes, cede lugar ao ordenamento jurídico moderno que passa da hierarquia para o princípio da igualdade e dissolve os estamentos na categoria do indivíduo. Assim, paulatinamente, a começar pela conquista dos direitos civis no século XVIII, decorrem por corolário os direitos políticos no século XIX, desfechando com os direitos sociais no século XX.

Contrariamente, Saes é peremptório ao afirmar que a conquista das esferas de direito não é nem uma progressão natural-lógica, nem um processo irreversível, nem mesmo que a democracia é uma condição necessária para o capitalismo. Para Saes, a única esfera de direito conditio sine qua non para a sociedade capitalista é a esfera do direito civil, pois é a partir dela que há o assalariamento em massa dos trabalhadores despossuídos e, sendo assim, somente ela é salvaguardada, porque para a manutenção de sua própria sobrevivência os capitalistas dispõem dos meios de comunicação, produção, cargos dirigentes do aparelho burocrático, etc. Garantido os direitos civis, é secundária a forma de governo e inconveniente a maximização dos direitos sociais. Assim, Saes comprova seu argumento expondo casos históricos como o brasileiro, no qual o capitalismo conviveu com a ditadura, e de países periféricos nos quais os direitos sociais inexistem.

Além de a democracia não ser inerente ao capitalismo, também a efetiva cidadania não é inerente à democracia, e dirá Saes que, pelo contrário, também o capitalismo democrático é um empecilho para a instauração da plena cidadania.

A crítica radical sobre a cidadania no capitalismo democrático é corroborada pelo próprio Saes, segundo tradição marxista, onde os direitos sociais presentes na cidadania só poderão ser plenamente gozados por todos numa sociedade pós-capitalista. Para reforçar esta conclusão, Saes aponta para a crônica condição do proletariado que não encontra condições sociais que o estimulem a arcar com o ônus do engajamento político nos moldes capitalistas, mas que quando consegue disposições para mobilização, depara-se com um aparelho burocrático limitador de seus esforços e com a fração burguesa da sociedade, organizada e detentora de toda espécie de recursos para assegurar a estratificação social escamoteada pelo direito.

Referência bibliográfica:
UNICAMP. Disponível em: http://www.unicamp.br/cemarx/criticamarxista/16saes.pdf>. Acesso em 15/07/2010.

terça-feira, 13 de julho de 2010

PERSPECTIVAS SOCIOLÓGICAS

[Hopper, Edward
Chop Suey, 1929
Oil on canvas]


JEAN BAUDRILLARD
PARA UMA CRÍTICA DA ECONOMIA POLÍTICA DO SIGNO
Primeira Parte
FUNÇÃO-SIGNO E LÓGICA DE CLASSE
II
PERSPECTIVAS SOCIOLÓGICAS
Fichado por Alisson Gebrim Krasota




Para compreendermos a lógica e a dinâmica da estratificação social presentes e persistentes na mesma categoria de objetos, não é suficiente a constatação de sua posse na relação unívoca com a escala social ou com a trajetória do indivíduo (confundindo pertença social com pretenção social), mas é preciso uma semiologia da prática dos objetos e do tipo de organização do contexto.

Não se quer dizer que os objetos em si não são portadores de códigos sociais em suas formas, cores, materiais etc. Porém, uma análise sociológica correta verificará sincronias ou incoerências pela confissão do processo social do valor do objeto com a situação social do grupo ou do indivíduo em sua relação: de pretensão social e de resignação, de mobilidade social e de inércia, de aculturação e de enculturação.

Referência bibliográfica:
BAUDRILLARD, Jean. Perspectivas sociológicas. In: BAUDRILLARD, Jean. Para uma crítica da economia política do signo. São Paulo: Martins Fontes, [?]. pp. 17 - 23

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A FUNÇÃO SOCIAL DO OBJETO SIGNO

[Newsies at Skeeter Branch by Lewis Hine, 1910]

JEAN BAUDRILLARD
PARA UMA CRÍTICA DA ECONOMIA POLÍTICA DO SIGNO

Primeira Parte

FUNÇÃO-SIGNO E LÓGICA DE CLASSE

I
A FUNÇÃO SOCIAL DO OBJETO SIGNO
Fichado por Alisson Gebrim Krasota
Uma verdadeira teoria do consumo dos objetos não deve reproduzir a ideologia de consumo que apregoa manifesta e conscientemente seu valor de uso em decorrência da relação técnica com o mundo e da satisfação de necessidades “naturais” do indivíduo. Antes, deve levar em conta o discurso social e inconsciente da função distintiva do consumo dos objetos.

Originalmente, a exemplo da kula, o consumo de bens é uma instituição, que no seu inerente constrangimento cultural, busca a prestação social hierárquica, por detrás das superestruturas da compra, do mercado e da propriedade privada.
Segundo Veblen, acompanha a função de trabalhar e produzir das classes submetidas, a função de ostentar o prestígio do Senhor. Quando aquelas estão sujeitas ao ócio, este é precisamente o momento ótimo da ostentação do standing do Senhor.

"é sempre naquilo que têm de inútil, de fútil, de supérfluo, de decorativo, de não funcional, que se constituem categorias inteiras de objectos (bibelots, gadgets, acessórios) o jogo da moda; os objectos nunca se esgotam naquilo para que servem, e é neste excesso de presença que ganham a sua significação de prestígio, que 'designam' não já o mundo, mas o ser e a categoria social do seu possuidor."(BAUDRILLARD, p.14)
Síntese de duas morais contrárias (da moral aristocrática do “otium” e da ética puritana do trabalho), o objeto apresenta um simulacro funcional que serve de álibi à função distintiva. Assim, o objeto funcional reveste-se da inutilidade da decoração e o objeto inútil, de uma razão prática, mas todos os objetos se submetem à moral democrática do esforço, do fazer e do mérito.
O objeto, antes de ser o lugar da satisfação de necessidades, é o lugar de um trabalho simbólico de distinção, não no sentido psicológico da concorrência consciente pelo mais bonito, mas sim na mecânica social largamente inconsciente.
Referência bibliográfica:
BAUDRILLARD, Jean. A função do objeto signo. In: BAUDRILLARD, Jean. Para uma crítica da economia política do signo. São Paulo: Martins Fontes, [?]. pp. 11 - 16