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terça-feira, 20 de julho de 2010

A OBRA DE ARTE NA ERA DE SUA REPRODUTIBILIDADE TÉCNICA

[Modern Times, EUA 1936
Charles Chaplin]

Walter Benjamin
A OBRA DE ARTE NA ERA DE SUA REPRODUTIBILIDADE TÉCNICA
Primeira versão


Fichado por Alisson Gebrim Krasota

Uma vez que a superestrutura se modifica mais lentamente, as condições de supressão do capitalismo virão de sua base econômica. Sendo assim, tanto as tendências evolutivas da arte quanto sua forma de percepção dependem das condições produtivas.

Originariamente, a função social da arte foi atrelada ao seu valor de culto, pois a arte nasce inserida em ritual mágico-religioso. Atualmente, mesmo nos rituais secularizados da arte pela arte, é este fundamento teológico que justifica os critérios de aura e autenticidade reivindicados pela arte.

A autenticidade é a quintessência de tudo o que foi transmitido pela tradição, a partir da origem, desde sua duração material até o seu testemunho histórico. A aura é a aparição única e distante da obra.

Os gregos foram quem marcaram a evolução artística e a imbuíram deste valor de eternidade em suas obras, pois só conheciam duas técnicas de reprodução: o molde e a cunhagem.

A obra de arte só foi reproduzida tecnicamente e em massa, com o advento da xilogravura, seguida pela litografia, logo ofuscada pela fotografia. A fotografia altera a natureza da arte, pois é uma obra de arte criada para ser reproduzida.

É com a reprodutibilidade técnica que a função social da arte deixa de ser ritual para ser política. O valor de culto (onde o que importava era a existência das imagens e não sua visualização) é substituído pelo valor de exposição, que é a exponibilidade da obra, fundada na evolução técnica e custeada retroativamente por sua difusão em massa.

A reprodutibilidade técnica escapa à esfera da autenticidade e aniquila a aura das obras, desencadeando crises nas artes tradicionais. Estas crises são inerentes, pois toda forma de arte aspira a efeitos só possíveis sob uma nova forma de arte, que os realiza facilmente. O dadaísmo tentou produzir efeitos que o público hoje procura no cinema. Os dadaístas aniquilavam impiedosamente a aura de suas criações, transformando a obra de arte no centro de um escândalo. Seu caráter onírico abriu caminho à percepção tátil (lugares e ângulos) do cinema.

O cinema pode ser tomado como parâmetro para comparar as demais formas de arte:
a) Em relação a arquitetura, esta comporta uma forma a mais de recepção: além da percepção, também pelo uso.
b) A respeito da pintura, a concepção medieval do quadro era para visualização restrita, ao contrário do cinema, que só é economicamente viável se for concebido para as massas. Além disso, o pintor, ao manter uma distância natural com a realidade, produz uma descrição desta menos significativa que o cinema para o homem moderno, uma vez que a intervenção técnica cinematográfica produz uma realidade mais real que o real.
c) No tocante ao teatro, onde cada apresentação possui nuances de representação, o cinema, com o auxílio de um grêmio de especialistas, usa os aparelhos a serviço do ator, na otimização da fragmentada representação deste, que afirma sua humanidade diante da máquina, ao mesmo tempo em que se volatiza na transportabilidade de sua imagem à recepção das massas.

Sobre a recepção, afirma-se que as massas procuram na obra de arte distração, enquanto o conhecedor a aborda como recolhimento. Se esta distração pode ser positiva com a hilaridade coletiva das psicoses das massas, por outro lado há também a corrupção fascista da consciência das massas no estrelato do ator, nos episódios grotescos e na crise da democracia pelo modo de exposição do político. “A reprodução em massa corresponde de perto à reprodução das massas.” (BENJAMIN, p. 194)

A guerra é por excelência a fascista estetização da política, pois dá um objetivo aos movimentos de massa, mobiliza em sua totalidade os meios técnicos do presente e preserva as relações de produção existentes. “A guerra é a forma mais perfeita do art pour l’art. Sua auto-alienação atingiu o ponto que lhe permite viver sua própria destruição como um prazer estético de primeira ordem [...] O comunismo responde com a politização da arte.” (BENJAMIN, p.196)

1935/1936


Referência Bibliográfica:
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994. pp. 165 - 196.

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