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quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O PROBLEMA DA DEFINIÇÃO GERAL DE ARTE

[Marcel Duchamp, 1968]

UMBERTO ECO
O PROBLEMA DA DEFINIÇÃO GERAL DE ARTE

Fichado por Alisson Gebrim Krasota

A passagem da concepção moderna de arte (ligada às noções de gênio individual, sentimento, fantasia, invenção de regras originais) para a arte contemporânea, engendrou a expressão “morte da arte”.

Isto porque a arte contemporânea é caracterizada por sua autoconsciência poética. Outras maneiras de assim dizer: excesso de intelectualismo; excesso de reflexão; autoreflexão estética; autoconsciência crítica etc. Tudo isso se traduz no formato: poesia do fazer poesia, arte sobre a arte, pintura da pintura, música da música, obra de arte como poética de si própria etc. Em suma: “A celebração do máximo de consciência da essência da artisticidade na desmontagem analítica e experimental das suas estruturas e, portanto, na autodestruição que se verifica na arte” (ECO, ?, p. 127).

Importa dizer que a palavra “morte” não deve ser acima entendida no seu significado comum de “fim”, mas no seu sentido dialético de “morrer para assumir novas formas”. Justamente estas novas formas assumidas pela arte contemporânea implicam um novo conceito de arte. Então, o que é arte (atualmente)?

Conforme delatam os parênteses, esta pergunta implica o limite da situacionalidade histórica, ou seja, o reconhecimento da mutabilidade da natureza da arte. Porém, este não é o único limite implicado na pergunta, pois a situacionalidade histórica sugere um gosto histórico e, portanto, a parcialidade de uma escolha crítico-valorativa, portanto, normativa.

Resulta que toda resposta a pergunta “o que é arte?” está limitada pelo contexto histórico e fatalmente será normativa, pois simultaneamente diz o que NÃO é arte, arriscando a excluir manifestações artísticas não previstas. Em nota de rodapé, o autor reafirma a pergunta antecipando as soluções da teoria em voga de quando escreveu o artigo: “será possível uma análise estrutural da fala poética, de uma realidade de signos, que não implica apenas uma relação entre símbolo e denotata, mas também o universo ‘aberto’ dos connotata?” (ECO, ?, p.142).

Sendo assim, conclui o autor que não se deve perguntar o que é arte porque não há uma resposta satisfatória à pergunta? Não é o caso, pois “É impossível falar de uma tensão multiforme na vida da arte se não se começar a dar um sentido à palavra “arte”, o que implica precisamente a formulação de um modelo geral da arte” (ECO, ?, p.147).

Vejamos então como se tentou solucionar esta questão. Luigi Pareyson propõe a teoria da formatividade, na qual a atividade artística é definida como “formar por formar”. Formaggio critica esta concepção argumentando que ela exclui artes aplicadas como a cerâmica e a arquitetura, ao que Eco contra-argumenta que as exigências da função são estímulos nas mãos do artista para que estas tomem forma.

Formaggio procura responder à questão assumindo a radical disponibilidade para com o devir na arte. Com base no reconhecimento da mutabilidade e historicidade da arte, procura a lei que regula o desenvolvimento da evolução artística, buscando superar a determinação do momento e da escolha operativa através de uma idéia dialética de artisticidade. É assim que propõe uma definição categorial de arte como “a actividade pela qual as experiências do mundo sensível percepcionadas pelo artista segundo as modalidades do plano estético são incorporadas numa matéria e levadas a constituir-se no plano artístico” (ECO, ?, p.143-144).

Eco critica essa conceituação por nada dizer a respeito da arte, a não ser que também os fenômenos artísticos estão sujeitos à mudança, e é em nota de rodapé que advoga a legitimidade de uma teoria geral da arte em consonância com as mutabilidades das perspectivas poéticas:

“elaborar uma definição hipotética da arte não significa pretender esgotar para sempre o problema de uma essência da arte, mas elaborar um modelo para fenômenos artísticos: semelhante elaboração de modelos não exclui, como procurámos demonstrar, a consciência da historicidade dos próprios modelos. Pelo contrário, é esta consciência histórica que conduz à elaboração de modelos”. (ECO, ?, p.147).

1963

Referência bibliográfica:
ECO, Umberto. O problema da definição geral de arte. In.: A definição da arte. São Paulo: Martins Fontes, ?. pp. 123 - 149.

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