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quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A PRODUÇÃO DA CRENÇA

[Roue de bicyclette, Paris,1913
Marcel Duchamp]

Pierre Bourdieu
A PRODUÇÃO DA CRENÇA

Fichado por Alisson Gebrim Krasota

Como todo campo social, o campo de produção da arte é o campo de lutas entre agentes e instituições. Exclusivamente, os agentes são autores, atores, críticos etc. e as instituições são as que lhes correspondem: editoras, companhias, jornais etc. De modo geral, a luta travada diz respeito ao monopólio legítimo do poder de consagrar obras e/ou autores. Especificamente, esta luta é travada em dois planos: a) entre agentes de mesma profissão (estabelecidos e/vs. pretendentes) e b) entre agentes de profissões complementares (pintores vs. marchands, autores e/vs. editores etc.). O “e/vs.” dessas disputas sinaliza a cumplicidade entre os antagonistas, pois por mais que os pretendentes desejem subverter a hierarquia, nunca o fazem questionando o jogo, mas apenas o modo de entrar no jogo. Ainda, sobre a luta pelo poder, implica-se: a) a luta é a condição histórica do campo, onde as vanguardas consagradas (os clássicos) são remetidas ao passado pelas novas vanguardas, que impõem seu nome e suas preferências, num universo onde existir é diferir; b) o poder em disputa é oblíquo e advém da capacidade de converter o crédito da competência cultural do agente em capital econômico.

Como todo campo social, o campo de produção da arte apresenta homologias. A homologia é o encontro casado entre estruturas objetivas e estruturas incorporadas. A estrutura objetiva nada mais é que os condicionantes materiais das práticas dos agentes (faixa etária, profissão, domicílio, origem social etc.) e as estruturas incorporadas a vivência das representações sociais destes condicionantes materiais. Exemplificando a relação entre estas estruturas, temos que ao endereço correspondem proximidades sociais; à juventude biológica corresponde a juventude social, manifesta nas indumentárias, no uso do corpo (héxis) e no estilo de vida, cuja representação social se identifica com a recusa (temporária) das honrarias do presente século. Desnecessário dizer que agentes biologicamente velhos podem vivenciar a juventude social e vive-versa.

Agora, vejamos pormenorizadamente quais são as peculiaridades das homologias estruturais e funcionais do campo da arte. De modo geral, há um acordo subentendido entre os agentes, que diz que a subversão dos pretendentes nunca deve ser tão radical a ponto de questionar o jogo, mas apenas o modo de entrar no jogo. Além disso, há uma lei fundamental do campo, que consiste na denegação da economia. Por denegação não se entende uma negação da economia ou a cínica dissimulação de seu aspecto mercantil, mas a capacidade de conversão oblíqua do capital cultural em capital econômico.

Quanto às homologias funcionais, estas são sobredeterminadas sobre os agentes, ou seja, os agentes não apenas respondem diante de sua classe e público, mas também, e especificamente, diante dos seus adversários. Por exemplo, o crítico burguês, concomitantemente ao legitimar-se diante de seu público (burguês) ao defender a estética burguesa, está disputando com os críticos de vanguarda a acumulação de capital simbólico, moeda capaz de converter-se em capital econômico.

Este exemplo antecipa os dois pólos do campo de produção da arte: a estética burguesa, também conhecida como “comercial” e a estética intelectual, também conhecida como “não-comercial” ou de vanguarda.

A estética burguesa, condicionada pelo grande porte de suas empresas e pelo igual volume de suas produções, considera o sucesso (econômico) por si só o valor de sua obra. Os empreendimentos deste nicho não assumem risco, investindo em cânones preestabelecidos que correspondem a uma demanda conhecida de antemão, em um ciclo curto de produção que é a rápida obsolescência de seus produtos, que contam com o aparato da publicidade na agilização do seu fluxo. A exceção é a vulgarização dos clássicos, que por mais envelhecidos sobrevivem ao tempo. Decorre que o sucesso econômico da produção burguesa é inversamente proporcional ao seu prestígio no interior do campo de produção da arte, pois entra em choque com a lei fundamental do campo que é a denegação da economia. Sendo assim, no terreno da arte, a estética burguesa é dominada e à ela é atribuída a idade social dos velhos. Mais do mesmo do nicho burguês está o estilo de vida prazeroso coadunado com as “palavras-chave da estética ‘burguesa’: jovialidade, alegria de viver, bom humor, assim como verve, animação, vivacidade, engenhosidade (‘espirituoso’), movimento (‘movimentado’), ousadia, harmonia (‘figurinos de linha harmoniosa’), sentido de equilíbrio, ausência de pretensão, naturalidade, delicadeza, honestidade, graça, destreza, Inteligência, tato, vida, riso.” (BOURDIEU, 2004, p.42).

Já os agentes da estética intelectual, condicionados pelo menor tamanho das empresas e volume de suas produções, assumem os riscos de um investimento a longo prazo, na lógica do dom que só pode ter a certeza do contra-dom (recompensa), se vier a se aceitar sem retorno. Como se pode notar, essa postura está de acordo com a lei do campo, e é justamente esse o trunfo dos pretendentes, cuja estratégia por excelência é o genuíno retorno às fontes, denunciando as insígnias de autoridade intelectual (conferidas por não-intelectuais) dos dominantes ao tempo que sustentam desinteresse por essas honras.

Dito tudo isto, resta apenas evidenciar duas ideologias:

1º) A ideologia do gênio do artista em conluio com o mito da criação (da obra de arte). Se não fosse o marchand, produtor e produto artístico permaneceriam no anonimato. Portanto, o preço de um quadro não é determinado pelo custo da produção, mas é determinado pelo comerciante de arte que consagra o produto ao revelá-lo para o mercado, pela garantia do seu capital simbólico acumulado. Em outras palavras, o descobridor é o criador do criador da obra de arte.
2º) Esse “descobrimento” não é inspirado por paixões desinteressadas, mas é ponderado por cálculos econômicos, além de estéticos. O marchand empenha seu crédito objetivando aumentá-lo ao beneficiar uma obra/autor. O sucesso não depende da influência de fulano ou de tal instituição, mas decorre das lutas pelo monopólio do poder de consagração.

Referência bibliográfica:
BOURDIEU, Pierre. A produção da crença: contribuição para uma economia dos bens simbólicos. In: BOURDIEU, Pierre. A produção da crença: contribuição para uma economia dos bens simbólicos. São Paulo: Zouk, 2004. pp. 18 – 111.

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