Orientações do blog

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· Produção de textos curtos (relativamente à densidade e prolixidade que pretende resumir) a fim de proporcionar um acesso mais dinâmico ao conteúdo.

· Linguagem acessível a público não-especializado, porém procurando manter expressões-chaves do autor considerado.

· Direta transmissão do conteúdo, preservando tanto a idéia central quanto as periféricas, em detrimento de palatáveis efeitos de retórica.

· Difusão de conhecimento na área de Humanas a fim de desmistificar o academicismo, promover debates e mais conhecimento.

· O blogue retomou as atividades em 2015 e tentará manter uma regularidade de publicação todo sábado.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O QUE É IDEOLOGIA?


[Cazuza
Capa do disco Ideologia, 1988]

TERRY EAGLETON
O QUE É IDEOLOGIA?

Fichado por Alisson Gebrim Krasota

A literatura a respeito do tema “ideologia” é vasta e não apresenta consenso entre si. O autor mapeia a discussão e conclui apresentando seis conceituações em ordem progressiva de cerceamento ao mesmo tempo em que aponta os limites de suas implicações. São elas:

1 – Ideologia como processo material geral de produção de idéias, crenças e valores na vida social. De acordo com o autor, essa acepção assemelha-se a um conceito de cultura situado entre o restrito sentido de trabalho artístico /intelectual e o amplo sentido antropológico de práticas e instituições de uma forma de vida. Acrescenta ainda que o combate ao idealismo e o silêncio sobre conflitos políticos são as implicações desta noção.

2 – Ideologia como idéias e crenças (verdadeiras ou falsas) que simbolizam as condições e experiências de vida de um grupo ou classe. Aqui ela refere-se à visão de mundo socialmente construída, porém, de acordo com o autor, permanece o silêncio sobre o conflito político.

3 – Ideologia como legitimação de interesses de grupos sociais frente a interesses opostos, ou seja, trata-se da manutenção do poder social. Esta noção quando entendida como discurso orientado para a ação é criticada como sendo excessivamente pragmática, mas quando entendida como efeitos de retórica para persuadir para o consenso é, pelo contrário, criticada por ser insuficientemente pragmática.

4 – Ideologia como promoção do poder social hegemônico, seja na imposição hierárquica de idéias, seja na cooptação cúmplice das classes subordinadas. Segundo o autor, esta visão silencia-se frente à questão do caráter verdadeiro ou falso da ideologia.

5 – Ideologia como sistema de crenças que legitimam um poder dominante, sobretudo pelo caráter dissimulado de seu discurso. O autor refina o conceito ao apontar que nem sempre o interesse do grupo dominante é promovido neste sistema de crenças, ou ainda que este grupo nem sempre precisa recorrer ao caráter dissimulado do discurso.

6 – Ideologia como crenças falsas ou ilusórias não advindas de um grupo social dominante, mas decorrente da própria estrutura material do conjunto da sociedade. Segundo o autor, o exemplo por excelência é a teoria marxista sobre o fetichismo da mercadoria.

Esta sistematização final apresentada pelo autor é a decantação de discussões pormenorizadas que permeiam todo o texto. A fim de simplificá-las, dividimo-las em sete eixos: a) epistemologia elitista; b) usos sociais do conceito; c) esterilidade analítica; d) epistemologia marginal; e) semiologia; f) fenomenologia do conceito e g) epistemologia segundo Eagleton.

a) Por epistemologia elitista apreendemos a discussão situada pelo autor a respeito de uma visão elitista do conceito de ideologia, na qual existe uma forma correta de enxergar o mundo que a maioria das pessoas desconhece. Segundo esta vertente, as pessoas orientam suas ações com base em idéias preconcebidas, ignorando o sentido profundo de suas práticas. O autor rebate este argumento advogando que não existe um pensamento livre de pressupostos, que idéias absurdas não sustentariam práticas cotidianas, que é suspeito um círculo que se auto-proclame portador da mundivisão correta e que as pessoas em geral tem um olhar bastante agudo quando se trata de seus interesses pessoais.

b) Em relação aos usos sociais do conceito ideologia, verificamos no texto a passagem na qual os teóricos políticos Edwar Shils e Kenneth Minogue entendem ideologicamente o conceito como, respectivamente, idéias unânimes que resistem à inovação (conotando como uma carapuça sob medida à União Soviética) e idéias hostis “à modernidade: ao liberalismo na política, ao individualismo na prática moral e ao mercado na economia”.

c) A esterilidade analítica do conceito ideologia ocorre nas definições demasiado amplas, como quando o filósofo político Martin Seliger a compreende como “conjunto de idéias pelas quais os homens [sic] postulam, explicam e justificam os fins e os meios da ação social organizada, e especialmente da ação política, qualquer que seja o objetivo dessa ação, se preservar, corrigir, extirpar ou reconstruir uma certa ordem social”. Também Foucault, ao desvelar nas declarações mais ínfimas suas motivações ideológicas. Em suma, se a ideologia abrande meios e fins quaisquer ou está presente em toda parte (pan-ideologia), ela não o está em parte alguma, pois que a condição de algo diferir para poder existir.

d) Por epistemologia marginal é entendido as formas de conhecer e agir que atuam não apenas de cima para baixo, mas também de baixo para cima (hierarquicamente falando) e da periferia para o centro, ou seja, as formas de resistência sub-reptícias, enfocadas por Nietzsche e Foucault. Isso implica que nem todo corpo de crenças está associado ao poder dominante, mas também com movimentos de resistência, conscientes ou não.

e) O ponto de vista semiológico a respeito da ideologia diz respeito à análise de seus signos no âmbito da linguagem. A ênfase aqui é que a ideologia não está presente na estrutura da linguagem em si, mas no uso prático resultante da confluência da linguagem com o contexto social na qual está inserida. Assim, a estrutura da linguagem em si (espécie de vácuo social) e sua condição relativa ao contexto social, é mutatis mutandis, respectivamente chamada pelo crítico literário I. A. Richards, “referencial” (descritiva de estado de coisas) e “conativa”; para o filósofo inglês J. L. Austin e Paul DeMan, “constativa” e “performativa” e, finalmente, por Denys Turner, é considerada na distinção entre um significado transmitido explicitamente e um significado transmitido pelo próprio ato de transmitir.

f) Toda consciência é consciência de alguma coisa, ou seja, a fenomenologia é a síntese entre a razão e a experiência no processo de conhecimento. Este tom fenomenológico é verificado na proposição de “ideologia” do filósofo marxista Louis Althusser, que a entende como as relações vivenciadas com a realidade pelo sujeito. Eagleton critica a indiferença desta concepção em relação ao caráter verdadeiro ou falso do termo, pois afirma que numa era pós-freudiana, a própria subjetividade não está acima de suspeitas e que as experiências subjetivas não anulam o sistema de crenças (distorcido ou não) que as mediam.

g) Segundo Eagleton, o fundo epistemológico de um conceito de ideologia está presente quando este conceito faz alusão ao caráter verdadeiro ou falso do sistema de idéias. Nesse bojo, o autor desperfila inúmeras relativizações: uma crença pode não ser falsa em si mesma, mas por seus motivos; tanto uma crença falsa quanto uma verdadeira podem servir a propósitos de repreensão; idéias motivadas por interesses inconscientemente egoístas podem se revelar inúteis; crenças funcionais para um grupo social não precisam necessariamente ser motivadas dentro do próprio grupo; por fim, um conjunto de crenças pode ser falso, mas racional.

Referência bibliográfica:
EAGLETON, Terry. O que é ideologia? In.: Ideologia: uma introdução. São Paulo: Unesp: Boitempo, 1997. pp. 15 - 40.


MEDIAFIRE. Disponível em: http://www.mediafire.com/?njgtm1jwyn2>. Acesso em 06/09/2010.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

INTRODUÇÃO: A HISTÓRIA DA ARTE COMO UMA DISCIPLINA HUMANÍSTICA


[Paul Klee
Caminhos principais e
caminhos secundários, 1929]

ERWIN PANOFSKY
INTRODUÇÃO: A HISTÓRIA DA ARTE COMO UMA DISCIPLINA HUMANÍSTICA

Fichado por Alisson Gebrim Krasota

A fim de compreender a História da Arte como uma disciplina humanística, o autor começa por dar a conhecer o que é Humanitas. Depois compara o modus operandi das ciências naturais com as humanidades; a seguir, detém-se especificamente na disciplina da História da Arte, problematizando seu processo de conhecimento e conceituando Arte; daí, comenta a positiva cooperação da história da arte com áreas de conhecimento afins, para então finalizar justificando a importância da História.

Segundo o autor, a palavra humanitas conserva dois significados, advindos de dois contrastes, a saber: entre o homem e o que é menor e maior do que ele. O primeiro caso é relativo à concepção clássica, a qual contrapõe ao homem urbano, erudito e que respeita valores morais, o bárbaro. O segundo trata da concepção medieva, que contrapõe o homem à Deus, enfocando a fragilidade e transitoriedade humana.

A passagem da escolástica medieval para a atual ciência é acompanhada da passagem da indistinção entre ciências naturais e humanidades, para sua distinção. Ao comparar as ciências naturais com as humanidades, Panofsky constata que: a) ambas começam sua pesquisa pela observação, porém o que orienta o olhar na primeira é uma teoria, e na segunda um conceito geral de história; b) ambas são influenciadas por seu objeto de pesquisa, pois os instrumentos que o cientista utiliza estão sujeitos às mesmas leis da natureza que pretende explorar, assim também os documentos examinados por um humanista são produtos do que pretende investigar; c) A ciência natural tenta apreender leis intemporais a partir de processos temporais, enquanto que as humanidades têm a tarefa de avivar o que de outro modo estaria morto.

Conclui-se que as relações entre as ciências naturais e as humanidades são de complementaridade, sendo que as primeiras em sua scientia e conhecimento, denotam possessão mental e tem como meta domínio ou mestria, enquanto que as segundas, em sua eruditio e estudo, denotam mais um processo que uma possessão, e tem como meta sabedoria.

No particular da História da Arte, define-se arte como um objeto feito pelo homem que pede para ser experimentado esteticamente. Isso implica que: a) há objetos feitos pelo homem que não são obras de arte, comumente chamados de “práticos”, quer como veículos de comunicação ao transmitir um conceito, quer como ferramentas ao preencher uma função; b) há objetos não feitos pelo homem, objetos naturais que, por mais que possam ser apreciados esteticamente, não possuem em si tal intenção; c) a obra de arte tem sempre significação estética, mas não necessariamente é esta a sua meta, ou seja, há objetos “práticos” que são obras de arte.

É na aparente contradição entre o ponto “a” e “c” que se começa a problemática sobre o assunto. Afinal, em que momento um objeto começa a ser obra de arte? Apesar de ser impossível cientificamente definir esta passagem, é a partir da noção de “intenção” que, tanto quanto possível, pretende-se compreender uma obra de arte. É precisamente neste ponto que o historiador de arte diferencia-se do ingênuo observador, pois enquanto este, com seu “apreciativismo”, desfruta sem se dar conta de que sua interpretação depende de sua situação histórica, o historiador de arte

“verificará toda informação fatual existente quanto a meio, condição, idade, autoria, destino etc [...] comparará também a obra com outras de mesma classe, e examinará escritos que reflitam os padrões estéticos de seu país e época, a fim de conseguir uma apreciação mais “objetiva” de sua qualidade.” (PANOFSKY, 2009, p.36)

Agindo assim, o historiador de arte pode ser entendido como um connoisseur loquaz, visto que este é o colecionador, curador de museu ou perito que, deliberadamente, cumpre seu papel de identificar obras de arte com respeito à data, origem e autoria, e avaliá-la no tocante à qualidade e estado.

Depreende-se que a “intenção” é condicionada pelos padrões estéticos da época, solução específica de problemas artísticos genéricos, e que somente por um processo intuitivo de recriação artística auxiliado pela Arqueologia e Teoria da Arte, é o historiador capaz de adaptar sua percepção à intenção original do artista, reconhecendo o valor de uma obra de arte em relação às demais, pela uniformidade de seu método de análise.

Por que motivo devemos empenhar-nos em investigações não-práticas e interessar-nos pelo passado? Porque nos interessamos pela realidade. A vida contemplativa e ativa são, assim como as humanidades e as ciências naturais, complementares e mutuamente influenciadas. É impossível conceber nosso mundo em termos de ação apenas.

“Marsílio Ficino escreveu ao filho de Poggio Bracciolini: ‘A história é necessária, não apenas para tornar a vida agradável, mas também para lhe dar um significação moral. O que é mortal em si mesmo consegue a imortalidade através da história; o que é ausente torna-se presente; velhas coisas rejuvenescem; e um jovem logo iguala a maturidade dos velhos. Se um homem de setenta anos é considerado sábio devido a sua experiência, quão mais sábio aquele cuja vida abrange o espaço de mil ou três mil anos! Pois, na verdade, pode-se dizer que um homem viveu tantos milênios quantos os abarcados pelo alcance de seu conhecimento de história”. (PANOFSKY, 2009, p.46).



Referência bibliográfica:
PANOFSKY, Erwin. Introdução: a história da arte como uma disciplina humanística. In.: Significado nas artes visuais. São Paulo: Perspectiva, 2009. pp. 19 - 46.