Orientações do blog

Orientações do blog:
· Produção de textos curtos (relativamente à densidade e prolixidade que pretende resumir) a fim de proporcionar um acesso mais dinâmico ao conteúdo.

· Linguagem acessível a público não-especializado, porém procurando manter expressões-chaves do autor considerado.

· Direta transmissão do conteúdo, preservando tanto a idéia central quanto as periféricas, em detrimento de palatáveis efeitos de retórica.

· Difusão de conhecimento na área de Humanas a fim de desmistificar o academicismo, promover debates e mais conhecimento.

· O blogue retomou as atividades em 2015 e tentará manter uma regularidade de publicação todo sábado.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

INTRODUÇÃO: A HISTÓRIA DA ARTE COMO UMA DISCIPLINA HUMANÍSTICA


[Paul Klee
Caminhos principais e
caminhos secundários, 1929]

ERWIN PANOFSKY
INTRODUÇÃO: A HISTÓRIA DA ARTE COMO UMA DISCIPLINA HUMANÍSTICA

Fichado por Alisson Gebrim Krasota

A fim de compreender a História da Arte como uma disciplina humanística, o autor começa por dar a conhecer o que é Humanitas. Depois compara o modus operandi das ciências naturais com as humanidades; a seguir, detém-se especificamente na disciplina da História da Arte, problematizando seu processo de conhecimento e conceituando Arte; daí, comenta a positiva cooperação da história da arte com áreas de conhecimento afins, para então finalizar justificando a importância da História.

Segundo o autor, a palavra humanitas conserva dois significados, advindos de dois contrastes, a saber: entre o homem e o que é menor e maior do que ele. O primeiro caso é relativo à concepção clássica, a qual contrapõe ao homem urbano, erudito e que respeita valores morais, o bárbaro. O segundo trata da concepção medieva, que contrapõe o homem à Deus, enfocando a fragilidade e transitoriedade humana.

A passagem da escolástica medieval para a atual ciência é acompanhada da passagem da indistinção entre ciências naturais e humanidades, para sua distinção. Ao comparar as ciências naturais com as humanidades, Panofsky constata que: a) ambas começam sua pesquisa pela observação, porém o que orienta o olhar na primeira é uma teoria, e na segunda um conceito geral de história; b) ambas são influenciadas por seu objeto de pesquisa, pois os instrumentos que o cientista utiliza estão sujeitos às mesmas leis da natureza que pretende explorar, assim também os documentos examinados por um humanista são produtos do que pretende investigar; c) A ciência natural tenta apreender leis intemporais a partir de processos temporais, enquanto que as humanidades têm a tarefa de avivar o que de outro modo estaria morto.

Conclui-se que as relações entre as ciências naturais e as humanidades são de complementaridade, sendo que as primeiras em sua scientia e conhecimento, denotam possessão mental e tem como meta domínio ou mestria, enquanto que as segundas, em sua eruditio e estudo, denotam mais um processo que uma possessão, e tem como meta sabedoria.

No particular da História da Arte, define-se arte como um objeto feito pelo homem que pede para ser experimentado esteticamente. Isso implica que: a) há objetos feitos pelo homem que não são obras de arte, comumente chamados de “práticos”, quer como veículos de comunicação ao transmitir um conceito, quer como ferramentas ao preencher uma função; b) há objetos não feitos pelo homem, objetos naturais que, por mais que possam ser apreciados esteticamente, não possuem em si tal intenção; c) a obra de arte tem sempre significação estética, mas não necessariamente é esta a sua meta, ou seja, há objetos “práticos” que são obras de arte.

É na aparente contradição entre o ponto “a” e “c” que se começa a problemática sobre o assunto. Afinal, em que momento um objeto começa a ser obra de arte? Apesar de ser impossível cientificamente definir esta passagem, é a partir da noção de “intenção” que, tanto quanto possível, pretende-se compreender uma obra de arte. É precisamente neste ponto que o historiador de arte diferencia-se do ingênuo observador, pois enquanto este, com seu “apreciativismo”, desfruta sem se dar conta de que sua interpretação depende de sua situação histórica, o historiador de arte

“verificará toda informação fatual existente quanto a meio, condição, idade, autoria, destino etc [...] comparará também a obra com outras de mesma classe, e examinará escritos que reflitam os padrões estéticos de seu país e época, a fim de conseguir uma apreciação mais “objetiva” de sua qualidade.” (PANOFSKY, 2009, p.36)

Agindo assim, o historiador de arte pode ser entendido como um connoisseur loquaz, visto que este é o colecionador, curador de museu ou perito que, deliberadamente, cumpre seu papel de identificar obras de arte com respeito à data, origem e autoria, e avaliá-la no tocante à qualidade e estado.

Depreende-se que a “intenção” é condicionada pelos padrões estéticos da época, solução específica de problemas artísticos genéricos, e que somente por um processo intuitivo de recriação artística auxiliado pela Arqueologia e Teoria da Arte, é o historiador capaz de adaptar sua percepção à intenção original do artista, reconhecendo o valor de uma obra de arte em relação às demais, pela uniformidade de seu método de análise.

Por que motivo devemos empenhar-nos em investigações não-práticas e interessar-nos pelo passado? Porque nos interessamos pela realidade. A vida contemplativa e ativa são, assim como as humanidades e as ciências naturais, complementares e mutuamente influenciadas. É impossível conceber nosso mundo em termos de ação apenas.

“Marsílio Ficino escreveu ao filho de Poggio Bracciolini: ‘A história é necessária, não apenas para tornar a vida agradável, mas também para lhe dar um significação moral. O que é mortal em si mesmo consegue a imortalidade através da história; o que é ausente torna-se presente; velhas coisas rejuvenescem; e um jovem logo iguala a maturidade dos velhos. Se um homem de setenta anos é considerado sábio devido a sua experiência, quão mais sábio aquele cuja vida abrange o espaço de mil ou três mil anos! Pois, na verdade, pode-se dizer que um homem viveu tantos milênios quantos os abarcados pelo alcance de seu conhecimento de história”. (PANOFSKY, 2009, p.46).



Referência bibliográfica:
PANOFSKY, Erwin. Introdução: a história da arte como uma disciplina humanística. In.: Significado nas artes visuais. São Paulo: Perspectiva, 2009. pp. 19 - 46.

Nenhum comentário:

Postar um comentário