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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O QUE É IDEOLOGIA?


[Cazuza
Capa do disco Ideologia, 1988]

TERRY EAGLETON
O QUE É IDEOLOGIA?

Fichado por Alisson Gebrim Krasota

A literatura a respeito do tema “ideologia” é vasta e não apresenta consenso entre si. O autor mapeia a discussão e conclui apresentando seis conceituações em ordem progressiva de cerceamento ao mesmo tempo em que aponta os limites de suas implicações. São elas:

1 – Ideologia como processo material geral de produção de idéias, crenças e valores na vida social. De acordo com o autor, essa acepção assemelha-se a um conceito de cultura situado entre o restrito sentido de trabalho artístico /intelectual e o amplo sentido antropológico de práticas e instituições de uma forma de vida. Acrescenta ainda que o combate ao idealismo e o silêncio sobre conflitos políticos são as implicações desta noção.

2 – Ideologia como idéias e crenças (verdadeiras ou falsas) que simbolizam as condições e experiências de vida de um grupo ou classe. Aqui ela refere-se à visão de mundo socialmente construída, porém, de acordo com o autor, permanece o silêncio sobre o conflito político.

3 – Ideologia como legitimação de interesses de grupos sociais frente a interesses opostos, ou seja, trata-se da manutenção do poder social. Esta noção quando entendida como discurso orientado para a ação é criticada como sendo excessivamente pragmática, mas quando entendida como efeitos de retórica para persuadir para o consenso é, pelo contrário, criticada por ser insuficientemente pragmática.

4 – Ideologia como promoção do poder social hegemônico, seja na imposição hierárquica de idéias, seja na cooptação cúmplice das classes subordinadas. Segundo o autor, esta visão silencia-se frente à questão do caráter verdadeiro ou falso da ideologia.

5 – Ideologia como sistema de crenças que legitimam um poder dominante, sobretudo pelo caráter dissimulado de seu discurso. O autor refina o conceito ao apontar que nem sempre o interesse do grupo dominante é promovido neste sistema de crenças, ou ainda que este grupo nem sempre precisa recorrer ao caráter dissimulado do discurso.

6 – Ideologia como crenças falsas ou ilusórias não advindas de um grupo social dominante, mas decorrente da própria estrutura material do conjunto da sociedade. Segundo o autor, o exemplo por excelência é a teoria marxista sobre o fetichismo da mercadoria.

Esta sistematização final apresentada pelo autor é a decantação de discussões pormenorizadas que permeiam todo o texto. A fim de simplificá-las, dividimo-las em sete eixos: a) epistemologia elitista; b) usos sociais do conceito; c) esterilidade analítica; d) epistemologia marginal; e) semiologia; f) fenomenologia do conceito e g) epistemologia segundo Eagleton.

a) Por epistemologia elitista apreendemos a discussão situada pelo autor a respeito de uma visão elitista do conceito de ideologia, na qual existe uma forma correta de enxergar o mundo que a maioria das pessoas desconhece. Segundo esta vertente, as pessoas orientam suas ações com base em idéias preconcebidas, ignorando o sentido profundo de suas práticas. O autor rebate este argumento advogando que não existe um pensamento livre de pressupostos, que idéias absurdas não sustentariam práticas cotidianas, que é suspeito um círculo que se auto-proclame portador da mundivisão correta e que as pessoas em geral tem um olhar bastante agudo quando se trata de seus interesses pessoais.

b) Em relação aos usos sociais do conceito ideologia, verificamos no texto a passagem na qual os teóricos políticos Edwar Shils e Kenneth Minogue entendem ideologicamente o conceito como, respectivamente, idéias unânimes que resistem à inovação (conotando como uma carapuça sob medida à União Soviética) e idéias hostis “à modernidade: ao liberalismo na política, ao individualismo na prática moral e ao mercado na economia”.

c) A esterilidade analítica do conceito ideologia ocorre nas definições demasiado amplas, como quando o filósofo político Martin Seliger a compreende como “conjunto de idéias pelas quais os homens [sic] postulam, explicam e justificam os fins e os meios da ação social organizada, e especialmente da ação política, qualquer que seja o objetivo dessa ação, se preservar, corrigir, extirpar ou reconstruir uma certa ordem social”. Também Foucault, ao desvelar nas declarações mais ínfimas suas motivações ideológicas. Em suma, se a ideologia abrande meios e fins quaisquer ou está presente em toda parte (pan-ideologia), ela não o está em parte alguma, pois que a condição de algo diferir para poder existir.

d) Por epistemologia marginal é entendido as formas de conhecer e agir que atuam não apenas de cima para baixo, mas também de baixo para cima (hierarquicamente falando) e da periferia para o centro, ou seja, as formas de resistência sub-reptícias, enfocadas por Nietzsche e Foucault. Isso implica que nem todo corpo de crenças está associado ao poder dominante, mas também com movimentos de resistência, conscientes ou não.

e) O ponto de vista semiológico a respeito da ideologia diz respeito à análise de seus signos no âmbito da linguagem. A ênfase aqui é que a ideologia não está presente na estrutura da linguagem em si, mas no uso prático resultante da confluência da linguagem com o contexto social na qual está inserida. Assim, a estrutura da linguagem em si (espécie de vácuo social) e sua condição relativa ao contexto social, é mutatis mutandis, respectivamente chamada pelo crítico literário I. A. Richards, “referencial” (descritiva de estado de coisas) e “conativa”; para o filósofo inglês J. L. Austin e Paul DeMan, “constativa” e “performativa” e, finalmente, por Denys Turner, é considerada na distinção entre um significado transmitido explicitamente e um significado transmitido pelo próprio ato de transmitir.

f) Toda consciência é consciência de alguma coisa, ou seja, a fenomenologia é a síntese entre a razão e a experiência no processo de conhecimento. Este tom fenomenológico é verificado na proposição de “ideologia” do filósofo marxista Louis Althusser, que a entende como as relações vivenciadas com a realidade pelo sujeito. Eagleton critica a indiferença desta concepção em relação ao caráter verdadeiro ou falso do termo, pois afirma que numa era pós-freudiana, a própria subjetividade não está acima de suspeitas e que as experiências subjetivas não anulam o sistema de crenças (distorcido ou não) que as mediam.

g) Segundo Eagleton, o fundo epistemológico de um conceito de ideologia está presente quando este conceito faz alusão ao caráter verdadeiro ou falso do sistema de idéias. Nesse bojo, o autor desperfila inúmeras relativizações: uma crença pode não ser falsa em si mesma, mas por seus motivos; tanto uma crença falsa quanto uma verdadeira podem servir a propósitos de repreensão; idéias motivadas por interesses inconscientemente egoístas podem se revelar inúteis; crenças funcionais para um grupo social não precisam necessariamente ser motivadas dentro do próprio grupo; por fim, um conjunto de crenças pode ser falso, mas racional.

Referência bibliográfica:
EAGLETON, Terry. O que é ideologia? In.: Ideologia: uma introdução. São Paulo: Unesp: Boitempo, 1997. pp. 15 - 40.


MEDIAFIRE. Disponível em: http://www.mediafire.com/?njgtm1jwyn2>. Acesso em 06/09/2010.

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