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quarta-feira, 25 de maio de 2011

ASPECTOS ANTROPOLÓGICOS DA LINGUAGEM: CATEGORIAS ANIMAIS E INSULTOS VERBAIS

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EDMUND LEACH
ASPECTOS ANTROPOLÓGICOS DA LINGUAGEM: CATEGORIAS ANIMAIS E INSULTOS VERBAIS

Fichado por Alisson Gebrim Krasota

O tema analisado por Leach é o tabu. Por tabu geralmente se entende proibições explícitas sustentadas por sentimentos de pecado e sujeitas a sanções sobrenaturais a um nível consciente. No entanto, Leach amplia o conceito para proibições explícitas e implícitas, conscientes e inconscientes.

O tabu é objeto de interesse por gerar ansiedade, pois tudo quanto é tabu é sagrado, valioso, importante, poderoso, perigoso, intocável, imundo e infando.

A teoria geral do tabu de Leach tem influências do conceito de valor ritual de Radcliffe-Brown, de animais anômalos de Mary Douglas e de mitos na mediação de contradições, de Lévi-Strauss. Esta teoria não segue a corrente psicológica que analisa o tabu como superposição semântica, implicando interferência em um mecanismo de esquecimento. Seus pressupostos teóricos são de que tanto a linguagem quanto o comportamento são meios de comunicação e fazem parte da cultura e que a correspondência entre tabus linguísticos e comportamentais não possui relação causal, mas concomitante, ou seja, o tabu é simultaneamente comportamental e linguístico, social e psicológico.

A teoria é a seguinte: para a criança, o ambiente físico e social é um contínuo e seu problema inicial é determinar “o que sou eu em oposição ao mundo?”. Para tanto, a criança é ensinada a impor uma grade discriminatória sobre esse ambiente, ocasião em que o amplo espectro potencial de possibilidades classificatórias cede lugar à “nossa” classificação socialmente reconhecida como correta, moralmente justa e superior. Assim sendo, por exemplo, apesar de termos um amplo espectro de materiais comestíveis e nutritivos, somente uma pequena parte é classificada como alimento. Ainda, sua teoria afirma que é o tabu que permite a separação entre coisas homônimas e conceitos ambíguos, isto é, a linguagem fornece os nomes e o tabu separa as coisas. A título de ilustração, o termo foneticamente indistinguível [kwin] que pode significar queen (rainha) ou quean (prostituta), possui também uma homologia comportamental, pois tanto a rainha quanto a prostituta são fêmeas de status anormal e é o tabu da autoridade para a rainha ou do sexo para a prostituta que cria as condições de pretensa oposição entre termos semelhantes. Em suma, é o tabu que separa o “eu” do mundo e depois divide o mundo em zonas de distanciamento social em relação a esse eu, estabelecendo intensidades entre coisas mais sagradas e menos sagradas e uma escala graduada de perto/longe, mais como eu/menos como eu. Assim temos a seguinte disposição:

(a) Ego (eu)..... Irmã..... Prima..... Vizinha..... Estrangeira (sob o ponto de vista masculino).
(b) Ego (eu)..... Casa..... Fazenda..... Campo..... Longe..... (Remoto)
(c) Ego (eu)..... Animal de estimação..... Animal doméstico..... “Caça”..... Animal Selvagem

Conforme esta lógica, termos aparentemente díspares possuem semelhanças quanto à distância social e a intensidade do tabu. Nesse sentido, as proibições/permissões das relações sexuais na linha (a) estão para as proibições/permissões das relações de comestibilidade na linha (c). Em outras palavras, nem se cogita ter relações sexuais com a irmã ou se considera o animal de estimação como alimento; na sequência, somente em circunstâncias corretas a cópula com prima ou o consumo de animais domésticos é permitido (a saber, respectivamente, nas relações pré-maritais e quando novos ou castrados); não há proibições para vizinhas e animais de caça e a impossibilidade de estabelecer relações com uma estrangeira ou um animal selvagem é antes pela distância física (longe, remoto), do que por alguma proibição específica.

Por fim, temos a tese segundo a qual as extremidades deste esquema constituem termos básicos, binários e nítidos de significação e entre eles há uma mediação da distinção que cria categorias intermediárias ambíguas e carregadas do mais intenso tabu (caso da prima, que apesar de possuir consanguinidade não é uma parenta próxima e do animal doméstico).

Para ilustrar toda essa teoria, tomemos a religião como exemplo. Ela preconiza que neste mundo vida e morte coexistem, mas que no além serão separadas. No entanto, a idéia de um deus remoto no outro mundo, apesar de lógica é emocionalmente insatisfatória. Para tanto, a religião religa o contínuo entre este mundo e o outro e cria um ser sobrenatural, como a Virgem Maria Mãe de Deus, objeto da principal devoção e intenso tabu entre os católicos.

Ainda, é com base nos argumentos acima que compreendemos as seguintes situações:

a) distinção entre tabus conscientes e inconscientes. Para o judeu, porco é um alimento que não deve comer (consciente), mas para o inglês, cachorro sequer é considerado alimento e a proibição de sua comestibilidade é inconsciente.

b) distinção entre tabus mais como eu e menos como eu. O peixe é a única carne permitida aos católicos durante a sexta-feira santa, e isto porque, com seu sangue frio, ele é “menos como a gente”. Além disso, temos vergonha em matar animais de tamanho substancial, e quando mortos, mudam de nome. É assim que:

Bullock (novilho) torna-se beef (carne), pig (porco) torna-se pork (carne de porco), sheep (carneiro) torna-se mutton (carne de carneiro), calf (bezerro) torna-se veal (vitela) e deer (veado) torna-se venison (carne de veado). Mas os animais menores permanecem como são: Lamb (cordeiro), hare (lebre) e rabbit (coelho) e todas as aves são as mesmas, vivas ou mortas. (1983, p. 187).

No caso dos insultos verbais, há três categorias de “palavrões”: sexo e excreção; blasfêmia ou profanação e insulto animal. Quanto às exsudações referidas na primeira categoria, é sabido que são universalmente objeto de intenso tabu: fezes, urina, sêmen, sangue menstrual, mechas de cabelo, pedaços de unha, sujeira corporal, saliva e leite materno, sendo a única exceção a lágrima, talvez por sua associação às lágrimas dos santos. O expletivo “damn!” exemplifica a segunda categoria, pois damn! (danação, maldição) vem de god-dam (God's animal mother = a mãe animal de Deus) que combina blasfêmia com insulto animal. Finalmente, tema específico deste ensaio, o insulto animal ocorre quando um ser humano é equiparado a um animal de outra espécie, a fim de descrever qualidades humanas associadas ao animal, sendo que o uso insultuoso pig (porco) constitui um exemplo curioso (arbitrário), pois se “é certo que o porco é um carniceiro generalizado, [...] assim também é, por sua própria natureza, o cão, e não é nada racional que nós chamemos o primeiro de ‘nojento’ enquanto tornamos o segundo um animal doméstico de estimação.” (1983, p. 190)

Há de se notar ainda que:
i) animais de estimação, domésticos e de caça têm nomes monossilábicos: dog (cão), cat (gato), Bull (touro), cow (vaca), ox (boi) enquanto animais distantes têm nomes semilatinos muito compridos – elefante, hipopótamo, rinoceronte e assim por diante.

ii) o termo cadela (bitch) é amplamente tabu.

iii) termos eufemísticos surgem para substituir possíveis conotações embaraçosas. Assim, donkey (jumento) substitui ass (asno, que conota traseiro) e rabbit (coelho), substitui coney (coelho, mas também uma palavra próxima a cunt, que significa vagina). Curioso que enquanto o cunny adulto mudou para o inócuo rabbit, a linguagem infantil reteve a forma bunny.

iv) animais de fazenda têm termos separados para 1) macho inteiro, 2) fêmea inteira, 3) o lactente, 4) fêmea imatura e 5) macho castrado, talvez apenas pelos requisitos técnicos da vida rural.

v) A raposa é um exemplo de ambigüidade. Situa-se entre a fronteira dos animais comestíveis do campo e os animais selvagens não comestíveis. Em Inglês uma pequena troca de vogais (Fox) produz o significado obsceno (fux). Ela é monossilábica, mas está afastada socialmente.

As raposas são caçadas por matilhas de cães e, na matança ritual final, a raposa tem sua cabeça e cauda cortadas, as quais são preservadas como troféus, mas nada disso pode ser falado em linguagem comum. A própria raposa é chamada de dog, os cães são descritos como hounds (mastins), a cabeça da raposa é uma máscara, sua cauda uma escova (ou moita, brush) e assim por diante. (1983, p. 191)

Leach encerra o ensaio invocando seu trabalho de campo com o Kachin, tribo no nordeste da Birmânia, a fim de indicar a extensão universal de sua teoria. Segundo ele, as freqüentes palavras homônimas entre a linguagem Kachin também tornam-se menos carregadas de tabu à medida em que a distância social aumenta.

Referência bibliográfica:


LEACH, Edmund. Aspectos antropológicos da linguagem: categorias animais e insulto verbal. In.: LEACH, Edmund. Antropologia. São Paulo: Ática, 1983. p. 170-198.





Antropólogo social inglês, Sir Edmund Leach nasceu em 1910, em Sidmouth-Devon, Inglaterra. Escolheu a antropologia social apenas aos 27 anos de idade. Aluno de B. Malinowski, na London School of Economics, no final dos anos trinta, publicaria em 1954 a sua obra mais importante, Political Systems of Highland Burma, após a realização de trabalho de campo entre os Kachin da Birmânia. Leach faleceu no início de 1989, depois de longa doença.

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