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quinta-feira, 30 de junho de 2011

A SOCIEDADE DOS INDIVÍDUOS

Friedrichstresse
Berlin, 1918
George Grosz (1893 - 1959)

NORBERT ELIAS
A SOCIEDADE DOS INDIVÍDUOS

Fichado por Alisson Gebrim Krasota

Referimo-nos várias vezes ao curioso jogo de salão a que alguns grupos da sociedade ocidental tendem a se entregar com tanta frequência. Nele encontramos dois partidos opostos: um diz que “tudo depende do indivíduo”, outro que “tudo depende da sociedade”. Diz o primeiro grupo: “Mas são sempre determinados indivíduos que decidem fazer uma coisa e não outra”. Os oponentes retrucam: “Só que as decisões deles são socialmente condicionadas”. O primeiro grupo afirma: “Mas o que vocês chamam de ‘condicionamento social’ só se dá porque outros querem fazer alguma coisa e a fazem.” Os outros respondem: “Mas o que esses outros querem fazer e fazem também é socialmente condicionado.” (ELIAS, 1994, p. 52)

Ao longo de todo o texto Elias inventaria as polaridades presentes na teoria social. De um lado o indivíduo, o dentro, as leis internas, o inato. De outro, a sociedade, a anima collectiva, as massas, a mentalidade coletiva, o organismo coletivo, o transcendente, o Espírito do Mundo, Deus, o supraindividual, o fora, o socialmente condicionado.

Há certo antagonismo na ênfase entre os pólos. Nesse sentido, ora se afirma que o bem-estar do indivíduo é a finalidade da sociedade, ora que a manutenção da unidade social é o “fim” para o qual os indivíduos concorrem. Pela negativa, deriva-se que a liberdade do indivíduo é cerceada pelas proibições e controles da sociedade, onde o indivíduo é obrigado a negar sua “verdade interior” em favor de uma especialização da vida adulta.

Porém, nem o indivíduo, nem a sociedade são um todo uno, harmonioso e isento de contradições. No indivíduo existem órgãos e funções que servem para manter e reproduzir constantemente o próprio organismo, mas há também os porões do psiquismo e do inconsciente, funções mentais maleáveis e relacionais que se dirigem para outras pessoas e coisas, com as quais o ser humano, pelo ajustamento social, deixa de ser pouco mais do que um animal para se tornar humano no sentido pleno da palavra. A maleabilidade de nossas funções mentais nos diferencia dos animais e é a base da historicidade, isto é, no humano a ausência de predeterminação hereditária é substituída por determinação social. Cada “eu” só é possível por estar irrevogavelmente inserido num “nós”.

Quanto à sociedade, suas tensões derivam dos estágios de divisão do trabalho. Quando grupos em livre concorrência entram em conflito violento, visam, queiram ou não, a uma situação de monopólio de bens e valores sociais de que outras pessoas dependem, seja para sua subsistência, seja para se protegerem ou para efetivarem sua vida social, perpetuando, assim, a tensão. Em outras palavras, a atividade individual de alguns é a limitação social de outros. No entanto, isso não significa dizer que reis ou generais possuam uma margem de ação e decisão ilimitadas e que escravos são meros instrumentos pusilâmines. Significa apenas que, na estrutura social existente, dependendo do ponto em que um indivíduio nasce e cresce, da situação de seus pais e da escolarização que recebe, a natureza e a extensão da margem de decisão que lhe cabe pode ser maior ou menor. Nesse contexto e do ponto de vista da ordem vigente, o desenvolvimento dos mais fracos só é possível em direções vistas como anti-sociais.

A desconstrução da unidade da sociedade e do indivíduo implica a superação dessa dicotomia, visto que a individualização é formada pela socialização da função mental maleável do indivíduo e que a sociedade é uma sociedade de indivíduos, isto é, não da soma de indivíduos isolados e tampouco da realização da vontade de um ou de todos os indivíduos (sob contrato social, referendo ou eleições), mas da rede de funções interdependentes da qual fazem parte.

Isso implica que não há um grau zero de socialização, um “começo” ou ruptura nítida. A pessoa individual não é um começo e suas relações com as outras não têm origem primeva. Seria necessário reler o mito da criação, pois no começo não havia uma única pessoa, mas diversas pessoas que viviam juntas. E nesse sentido, “alma”, “razão”, “sentimento”, “consciência”, “instinto”, “ego”, “id” são formas particulares de auto-regulação da pessoa em relação a outras pessoas e coisas, e não algo dado pela natureza.

O modelo da bola de bilhar ou dos postes, onde o indivíduo é encarado isoladamente como dotado de dons psíquicos individuais inatos onde posteriormente fios de relações sociais são interligados deve ser substituído pelo modelo reticular, pela rede de tecido:

Nessa rede, muitos fios isolados ligam-se uns aos outros. No entanto, nem a totalidade da rede nem a forma assumida por cada um de seus fios podem ser compreendidas em termos de um único fio, ou mesmo de todos eles, isoladamente considerados; a rede só é compreensível em termos da maneira como eles se ligam, de sua relação recíproca [...] A forma do fio individual se modifica quando se alteram a tensão e a estrutura da rede inteira.

[...] esse é um modelo estático. Talvez ele atenda um pouco melhor a seu objetivo se imaginarmos a rede em constante movimento, como um tecer e destecer ininterrupto das ligações. (ELIAS, 1994, p. 35).


A rede representa a indissociável complementaridade entre a psique, a sociedade e a história humanas. A chave para compreender a sociedade é a historicidade do indivíduo e é a psicologia a ponte entre as ciências naturais e sociais ao verificar a composição psicológica individual dentro do indivíduo como decorrência da auto-regulação histórica dos impulsos emocionais a curto prazo (fome, sexo etc.) e dos impulsos superegóicos a longo prazo (desejo de propriedade, utilização da moeda, produtividade do trabalho etc.) que impelem à civilização.

Nesse sentido, a estrutura de instintos e consciência da criança européia do século XII era diferente da criança européia do século XX e é nesse sentido também que a disputa pelo monopólio econômico desses impulsos está acompanhado de um monopólio da força física e de seus instrumentos, retroalimentando o continuum histórico. Foi assim que “[...] o desordenado monopólio da violência exercido por toda uma classe de senhores feudais em livre concorrência dá origem, no lento passar dos séculos, a um monopólio privado, hereditário e central da força e, por fim, ao centro de um aparelho de Estado controlável por amplos setores da população.” (ELIAS, 1994, p. 58). Esta historicidade alterou a regulação psíquica do comportamento humano.

De planos emergindo, mas não planejada
Movida por propósitos, mas sem finalidade.



Referência bibliográfica:
ELIAS, Norbert. A sociedade dos indivíduos. In.: ELIAS, Norbert. A sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994. p. 11-60.




Norbert Elias (Breslau, 22 de junho de 1897 — Amsterdã, 1 de agosto de 1990) foi um sociólogo alemão.De família judaica, teve de fugir da Alemanha nazista exilando-se em 1933 na França antes de se estabelecer na Inglaterra onde passará grande parte de sua carreira. Todavia, seus trabalhos em alemão tardaram a ser reconhecidos e ele viveu de forma precária em Londres antes de obter em 1954 um posto de professor na Universidade de Leicester. A obra mais importante de Elias foram os dois volumes de O processo civilizatório (Über den Prozess der Zivilisation). Infelizmente seus trabalhos tiveram reconhecimento tardiamente.

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