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terça-feira, 27 de setembro de 2011

A NOÇÃO DE ESTRUTURA EM ETNOLOGIA

Web of Jewels
Stacey Brown
Kingston, Canadá

CLAUDE LÉVI-STRAUSS
A NOÇÃO DE ESTRUTURA EM ETNOLOGIA

Fichado por Alisson Gebrim Krasota

Qualquer coisa, desde que não seja amorfa, possui estrutura. Porém, a noção de estrutura de Lévi-Strauss não resulta do que é comum entre todas as concepções já utilizadas e é o parentesco a coisa mais representativa para compreende-la, pois apresenta as características mais duráveis, sistemáticas e contínuas até na mudança.

I – Definição e problemas de método
           
A noção de estrutura não remete a um domínio próprio das relações sociais empíricas, mas a um modelo construído conforme estas e constitui um método a ser aplicado a problemas etnológicos.
           
O modelo deve satisfazer quatro condições:
           
1 – Apresentar um caráter de sistema, de tal forma que uma modificação num elemento é também uma modificação no todo.
2 – Cada modelo corresponde à transformações da mesma família.
3 – Permitir previsibilidade da transformação do todo em caso de modificação de seus elementos.
4 – O modelo deve dar conta de todos os fatos observados.

a) Observação e experimentação

Construir modelos através dos fatos não é o mesmo que experimentar os fatos através dos modelos. A concretude individualizada dos fatos deve ser descrita em seu detalhe, sem permitir que prenoções teóricas alterem sua natureza, mas ao mesmo tempo, os fatos devem ser estudados em sua relação com o todo, possibilitando a correlação com o caráter abstrato, formal e geral da pesquisa estrutural.

b) Consciência e inconsciente

Boas advertia que um grupo de fenômenos se presta melhor à análise quando a sociedade não dispuser de um modelo consciente para interpretá-lo ou justificá-lo, pois esses modelos são normativos e têm por função perpetuar as crenças e usos, ao invés de lhes revelar suas forças motoras.

Porém, se o etnólogo não puder inaugurar um modelo, ele deve respeitar esses modelos “feitos em casa”, pois cada cultura tem seus teóricos que possibilitam acesso à estrutura e estes merecem tanta atenção quanto a produção intelectual de um colega antropólogo; além disso, mesmo que o modelo nativo seja inexato, os erros que apresentam podem figurar entre os aspectos mais significativos e, às últimas consequências dessa premissa, uma representação consciente indígena merece mais atenção do que teorias do observador (também representações conscientes), pois oferecem melhor via de acesso às categorias inconscientes do pensamento indígena.

c) Estrutura e medida

Nem todo problema comporta uma solução métrica, mas nem por isso lhes falta um tratamento igualmente rigoroso.

d) Modelos mecânicos e estatísticos

O estruturalista precisa identificar estrategicamente níveis de realidade a fim de compreendê-las segundo modelos. Níveis de menor escala são mecânicos e de grande escala estatísticos. Nisso, tanto a história quanto a etnografia, com sua observação empírica e pontual, conduzem à modelos mecânicos. Em contrapartida, a sociologia e a etnologia, com sua abstração formal conduzem à modelos estatísticos. Temos assim, atribuindo arbitrariamente + ao primeiro termo e o sinal – ao segundo, a seguinte tabela:

                                               História          Sociologia     Etnografia     Etnologia
observação empírica/
construção de modelos          +                        -                      +                    -

modelos mecânicos/
modelos estatísticos                 -                        -                      +                   +

Entre os dois modelos, é claro que existem formas intermediárias e mistas e não há necessidade de paralisar diante do dilema de Goldstein, segundo o qual ou bem se estuda numerosos casos superficialmente ou se estuda um pequeno número de casos sem produzir um resultado genericamente válido. Diante do dilema, vale o que dizia Durkheim: “Quando uma lei for comprovada por uma experiência bem-feita, essa prova é universalmente válida”.

II – Morfologia social ou estrutura de grupo

Para Radcliffe-Brown não há nada além de seres humanos, sendo a noção de cultura (européia tanto quanto a de uma tribo africana) a reificação de uma abstração.

Porém, a pesquisa estrutural não investiga grupos de indivíduos, mas agrupamentos de fenômenos, sendo que o tempo e o espaço que lhes servem de substrato são sociais, isto é, possuem as mesmas propriedades dos fenômenos que os povoam, conforme as dimensões de cada sociedade.

Quanto ao tempo, se o método histórico não é utilizado não é por ser incompatível com a atitude estruturalista, mas por ser mais fácil estudar fenômenos sincrônicos à diacrônicos e isso pela homogeneidade relativa daqueles.

Quanto ao espaço, têm-se a impressão de que existe afinidades entre a configuração espacial e a estrutural, sem que isso signifique dizer, por exemplo, que a configuração espacial das aldeias reflete sempre a organização social como um espelho. Nesse sentido, as relações de intercasamentos nas sociedades modernas é de tamanho muito inferior ao que se poderia supor: apenas dez vezes maiores do que numa sociedade primitiva, o que leva a pensar que as redes de intercasamento são mais ou menos constantes e que a natureza complexa de uma sociedade resulta de outros laços sociais (econômicos, políticos, intelectuais).

Em suma, a pesquisa estrutural estuda numa coleção de indivíduos com tempo e espaço objetivados, os sistemas culturais (universal, continental, nacional, provincial, local, etc.; e familiar, profissional, confessional, político, etc.)  aos quais estão subordinados. Mais precisamente, procura identificar constantes entre os afastamentos significativos de cada cultura, cujos limites a experiência prova coincidirem aproximadamente.

III – Estática social ou estruturas de comunicação

Em toda sociedade há três níveis de comunicação e três sistemas que lhes correspondem: comunicação de mulheres e sistema de parentesco; comunicação de bens e serviços e sistema econômico e comunicação de mensagens e sistema linguístico. Por apresentarem entre si analogias, por um lado todos os três dependem do mesmo método e por outro subsiste entre eles uma diferença de escala. Por exemplo, o casamento é uma comunicação em ritmo lento e de mesma natureza (seres humanos) e a linguagem é de ritmo muito rápido e aquele que fala não se confunde com suas palavras.

Três considerações derivam dessa maneira de entender a comunicação social:

1 – Enquanto os jogos da sociedade tendem a afastamentos diferenciais tão grandes quanto possível dentro de uma regularidade estatística, as regras de casamento tendem a restabelecer uma regularidade estatística a despeito de valores diferenciais entre indivíduos e gerações.
            Fixadas as regras, cada indivíduo busca sua vantagem, sendo no plano do casamento: mais mulheres ou uma esposa invejável segundo critérios estéticos, sociais ou econômicos.

2 – O jogo consiste no conjunto de regras que o descrevem.

3 – Há a possibilidade de se introduzir concepções de um nível de comunicação em outro e também a possibilidade de se converter modelos estatísticos em modelos mecânicos e vice-versa.

O termo “estrutura social” evoca Radcliffe-Brown que busca reduzir a diversidade dos sistemas de parentesco a uma ordem. Mas Radcliffe-Brown tende a confundir observação e experimentação. Sua posição empirista reduz a noção de estrutura social ao conjunto das relações sociais e estas a relações de pares entre os indivíduos, não havendo um fechamento do sistema, pois o conglomerado de relações de pessoa a pessoa é extensível indefinidamente.

Murdock não distingue entre modelos estatísticos e mecânicos e busca, sobre abstrações, construir modelos mecânicos diretamente por meios estatísticos. Por exemplo, a regra preferencial para casamento não satisfaz relações pessoais por meio de um sistema de classes e supôr que os indígenas percebessem claramente relações de parentesco tão distantes a ponto de apresentar o grau de parentesco requerido e cair na classe correspondente, é psicologicamente inverossímil.

Para um bom uso do modelo estatístico convém lembrar o risco do círculo vicioso:

“a validade de uma correlação, mesmo baseada numa frequência estística impressionante, depende, no fim das contas, da validade do recorte ao qual se recorreu para definir os fenômenos correlacionados. Em contrapartida, o método premanece sempre eficaz para denunciar as correlações erroneamente aceitas” (1980, p. 33-4)

Fortes trabalha com a oposição entre modelo e realidade, sendo que a estrutura está para a realidade concreta como a gramática para a língua falada.

Lowie é quem formula o âmago da questão: quais são os fatos? A primeira pergunta a ser respondida pelo estruturalista. Para tanto é necessário desintegrar sistemas arbitrários e pretensas correlações. Lowie abandonava a perspectiva histórica em favor de fatores estruturais universalmente válidos; definia a exogamia como esquema institucional para compreender sociedades distanciadas.

IV – Dinâmica social: estruturas e subordinação

a) Ordem dos elementos (indivíduos e grupos) na estrutura social

O sistema de parentesco, as regras de casamento e de filiação garantem a permanência do grupo ao entrecruzar relações consaguíneas pela redistribuição de mulheres para formações de famílias fundadas na aliança.

Se é assim, são influências externas que introduzem transformações diacrônicas na estrutura? Quais as razões para que a estrutura social não se reduza à estrutura de parentesco?

Lévi-Strauss elenca três métodos para responder estas questões:

De modo lacônico, o primeiro, conforme o conselho de Lowie, consiste em indagar quais são os fatos.

O segundo consiste em correlacionar os fenômenos de parentesco a um nível imediatamente superior. Paráfrases: estabelecer correlações entre posições (estáticas) e comportamentos (dinâmicos), ou ainda, na expressão de Radcliffe-Brown, verificar correspondência entre sistema de atitudes (comportamento prescrito ou diferencial) e sistemas terminológicos (termo de parentesco). Na atualização de Lévi-Strauss não se trata de uma correspondência, mas de uma relação dialética entre atitudes e termos, onde as regras de comportamento tentariam resolver contradições do sistema terminológico e das regras de aliança.

Aqui há a aporia com Homans e Schneider, tratada em uma longa nota de rodapé, na qual, nas palavras de Lévi-Strauss, os autores tentam reduzir as regras de casamento preferencial ao sistema de atitudes. Estes autores objetam que há conexão necessária entre casamento matrilateral (casamento com a prima cruzada unilateral) e filiação patrilinear, ao que Lévi-Strauss argumenta que a correlação estatística (sociedades de filiação patrilinear são mais numerosas do que matrilinear e casamento matrilateral é mais frequente que patrilateral) não deve ser confundida com uma conexão lógica, substituindo as razões psicológicas da preferência das sociedades patrilineares pelo casamento matrilateral, pela hipótese da instabilidade das sociedades matrilineares que dificulta longos ciclos de reciprocidade, ao passo que ciclos curtos do casamento patrilateral se adaptam melhor.

Outro problema reside quando sistemas de parentesco não regem alianças matrimoniais entre iguais, mas operam com estruturas sociais fundadas na distinção de status. Há, então, de se examinar instituições como a poligamia e a hipergamia (ou hipogamia).

O terceiro método consistiria num estudo a priori de todos os tipos de estruturas concebíveis

“[...] noções como as de transitividade, ordem e ciclo, passíveis de tratamento formal e que permitem a análise de tipos generalizados de estruturas sociais [...] Na maioria das sociedades huamanas, o que chamamos de “ordem social” pertence a um tipo transitivo e não cíclico: se A é superior a B e B superior a C, A deve ser superior a C e C não pode ser superior a A. No entanto, as próprias sociedades [...] concebem outros tipos de ordem, que poderíamos chamar ‘virtuais’ ou ‘ideais’, quer no plano da política, no do mito ou no da religião, e essas ordens são por vezes intransitivas e cíclicas [...] reis que desposam camponesas ou [...] um gentleman obedece às ordens de seu merceeiro.

b) ordem das ordens

O sistema de parentesco fornece uma ordenação dos indivíduos segundo certas regras, a organização social e as estratificações sociais outras. Um modelo total de estruturas de ordem deve atentar às relações de união sob o ponto de vista sincrônico.

Estas ordens “vividas”, passíveis de serem abordadas do exterior independentemente da representação que delas têm os homens diferem das ordens “concebidas”, concernentes ao âmbito do mito e da religião e inatingíveis ao controle experimental, a não ser se submetidas às ordens “vividas”.

Nesse sentido, indicado por Durkheim, Radcliffe-Brown mostrou que fatos religiosos deveriam ser estudados como parte integrante da estrutura social. O fracasso da sociologia religiosa se deve a i) ligar as crenças a estados afetivos e ii) à imediata relação entre sociedade e religião.

Entre a série de variações que se interpõem há os elementos permanentes e não-permanentes das representações religiosas apontadas por Lowie, bem como a análise comparativa entre modelos de pequena escala, demonstrada por Nadel. A intenção não é compreender a função das crenças religiosas na vida social, sabida desde Lucrécio, mas sim quais os mecanismos que lhes permitem desempenhar tal função.

Enfim, o modelo antropológico para compreensão dos papéis sociais e indivíduos integrados em uma dada sociedade é análogo ao da teoria da comunicação com seus signos, isto é, o objeto em questão é mais numeroso que a simplicidade da mecânica clássica, embora reduzido para uma análise estatística e cálculos de probabilidade, conforme os princípios da termodinâmica.

O terreno da antropologia é híbrido e ambíguo e, além de parcos, são duvidosas as condições em que foram reunidos os fatos. Nas palabvras de Lévi-Strauss:

“É um pouco como se a física cósmica devesse construir-se por meio da observação de astrônomos babilônicos. Mas os corpos celestes ainda estão lá, ao passo que as culturas indígenas que nos fornecem nossos documentos desaparecem em ritmo acelerado” (p


Referência bibliográfica:
Tomo I – III
LÉVI-STRAUSS, Claude. A noção de estrutura em etnologia. In.: LÉVI-STRAUSS, Claude. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1980. pp. 1 – 36

Tomo IV
LÉVI-STRAUSS, Claude. A noção de estrutura em etnologia. In.: LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia estrutural. São Paulo: Cosac Naify, 2008. pp. 335-344.

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