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quinta-feira, 5 de abril de 2012

A tarefa do tradutor - Walter Benjamin


Ex libris de Jirí Lata, criado por Vojetch Cinybulk.


A tarefa do tradutor
Walter Benjamin
Fichado por Alisson Gebrim Krasota

É imperativo não levar em conta o receptor, nem pressupor sua atenção, mas sim a essência do homem. Mas não se dirige a tradução à leitores que não compreendem o original? Qual outra razão para dizer a “mesma coisa” repetidas vezes? Porém, a coisa, essencialmente, não tem nada a dizer, principalmente para quem a comrpeende. Além disso, assim como o original não existe em função do leitor, assim também é com a tradução. O essencial não se comunica. Somente as más traduções comunicam, e nisso passam ao largo do essencial.
            
A tradução é uma forma. No original reside a lei dessa forma. Duas são as questões da traduzibilidade: encontrará a obra tradutor adequado? Admitirá ela tradução? Não existir em função do receptor é preservar o melhor sentido dos conceitos de relação. Assim como quando o conceito de um instante inesquecível não é falso por ser esquecido, antes revela a não-correspondência dos homens (e a condição dessa correspondência é a rememoração de Deus), assim também a traduzibilidade quer ser levada em consideração, a despeito de, a rigor, não haver tradução. Porém, a tradução é forma e a traduzibilidade participa da essência.
           
A tradução nada significa para o original, antes, por ser posterior a ele, deriva de sua “sobrevida”. Implica-se nesta: história e não alma, animalidade ou sensação. Somente quando a obra atinge fama ela exige tradução.
           
A finalidade da tradução é revelação e, em sentido forte, revelação da intimidade entre as línguas, pois estas não são estranhas entre si naquilo que querem dizer. Isto não significa a transposição mais exata possível da forma e do sentido do original, assim como não há autenticidade na cópia ou reprodução do objeto. A tradução não ambiciona semelhança com o original, pois na sua pervivência ele se modifica, afinal, o que era tendência na época do autor tende a se esgotar, o que era novo tende a soar gasto, o que era de uso corrente tende a soar arcaico. Também a lingua materna do tradutor se modifica. Seria desastroso, porém, se, por causa disso, desviássemos nossa atenção do texto e a voltássemos para a subjetividade do autor.
            
A afinidade entre as línguas não implica semelhança, nem identidade com a proveniência, ainda que esta participe da afinidade. A afinidade meta-histórica entre as línguas está na pura língua. A pura língua é a língua da verdade, na qual os segredos últimos estão guardados sem tensão. A pura língua é o visado entre todas as línguas, ainda que o modo de visar entre elas seja diferente. O fim messiânico de suas histórias será a tradução e nesta, a distância  entre a Revelação e aquilo que oculta.
            
Toda tradução é um modo provisório de lidar com a estranheza das línguas. É impossível uma solução instantânea e definitiva. A tradução, diferentemente da arte, não perdura. Na tradução, o original cresce à pura língua, mas sua revelação é apenas aludida tangenciando a forma. O teor poético com a língua original formam uma unidade intraduzível na tradução. A tradução está consciente da vida da obra e a cristaliza na transposição.     
            
Não há, no entanto, necessidade de o tradutor ser poeta para captar a essência da obra, pois grandes tradutores como Lutero, Voss e Schlegel não o eram. Afinal, a tarefa do tradutor difere da do escritor. O primeiro busca a intenção derivada do texto, para reproduzir na própria língua a ressonância de uma obra estrangeira. O segundo, possui uma intenção primeira, ingênua e intuitiva.
            
Para amadurecer na tradução a semente da pura língua, os velhos e tradicionais conceitos de fidelidade e liberdade devem ser entendidos diferentemente. Em nome da pura língua, a fidelidade não deve ser a tradução de cada palavra, pois isto não é capaz de reproduzir o sentido do original, além do mais “a verdadeira tradução é transparente, não encobre o original” (p. 115). Do mesmo modo, se, aparentemente, a liberdade em tradução não é legítima, pois ela deve se limitar a apenas restituir o sentido do original, por outro lado, ela tem o dever de desprender-se do original para encontrar na própria língua sua intentio enquanto reprodução de sentido.
            
Resta em todas as línguas o simbolizante e o simbolizado. O primeiro é a forma finita das línguas e o segundo o devir oculto da pura língua. Transformar o simbolizante no simbolizado, recobrar a pura língua, esta é a única e colossal tarefa do tradutor.
            
Benjamin cita Pannwitz “nossas traduções (mesmo as melhores) partem de um falso princípio querem germanizar o sânscrito, o grego, o inglês, ao invés de sanscritizar, grecizar, anglicizar o alemão, elas possuem um respeito muito maior diante dos próprios usos linguísticos do que diante do espírito da obra estrangeira”.

COMENTÁRIOS
- O original, assim como Deus, é absoluto e independente do receptor e dos homens. Aquele é ou contém a essência e não deve se justificar.
 - Se a vida se refere à história, que dizer da vida dos animais sem história? Além disso, se se refere à história, se refere também à cultura, aos social, às instituições...
- Seria mesmo fama (na pervivência das obras) ou aura? "Erro" de tradução?
- As línguas possuem afinidade, em contraste com a concepção clássica de confusão em Babel. Porém, será mesmo que todas as línguas e com elas todas as culturas, querem mesmo expressar as mesmas coisas? Um mesmo mundo?
- O original passa para um domínio mais definitivo na medida em que não pode ser transferido por qualquer outra transposição (p. 111). Mas e a tradução da tradução?
- A concepção de tradução de Benjamin é normativa. A verdadeira tradução... a má tradução...
- A pura língua seria como uma estrutura profunda. Interessante buscar a estrutura pelo devir. Sahlins, por exemplo, faz o contrário, a partir de estruturas performativas e prescritivas pensa o devir, a história.
- Paradoxo que a consciência da historicidade e pervivência da obra leve a tradução a uma tentativa de impedimento de suas possibilidades na cristalização “morta” da forma.

OBSERVAÇÃO/CONCLUSÃO FINAL
- Benjamin dialoga uma concepção meta-histórica (simbolizado) e histórica (simbolizante) da tradução. Ressignifica os conceitos de fidelidade e liberdade. Identifica os limites da tarefa do tradutor em reinventar na própria língua o sentido visado.

- Buscar na teoria antropológica do perspectivismo o diálogo entre o nativo e o estrangeiro.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
BENJAMIN, Walter. A tarefa do tradutor. In.: Escritos sobre mito e linguagem. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2011. p. 101–119.

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