Orientações do blog

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sábado, 28 de julho de 2012

Torres de Babel - Jacques Derrida


TORRES DE BABEL
JACQUES DERRIDA

Fichado por Alisson Gebrim Krasota

TEMA DA PESQUISA
Tradução

CONTEÚDO FICHADO
            O ensaio de Derrida sobre tradução pode ser dividido em três partes: 1) análise do mito de Babel; 2) comentários sobre “Die Aufgabe des Übersetzers” [A tarefa do tradutor] de Benjamin. Esta se subdivide em quatro subgrupos: 2.1) sobre a necessidade e impossibilidade da tradução (double bind); 2.2) críticas à classificação da tradução de Jakobson; 2.3) as três precauções para se compreender a tarefa do tradutor; e 2.4) análise das metáforas utilizadas por Benjamin. Por fim: 3) considerações sobre a tradução no âmbito do Direito. 
            Na primeira parte, Derrida questiona o que é Babel. Para tanto invoca o artigo “Babel” escrito por Voltaire em seu Dicionário Filosófico, onde constam três significados: a) Deus-Pai; b) confusão e c) nome dado a toda capital da Antiguidade. Diante disso, coloca em evidência que o nome próprio Deus-Pai signifique também o nome comum confusão. Isso é tanto mais relevante porque nomes próprios não pertencem propriamente à língua e, portanto, não possuem tradução, apesar de possuírem sinônimos que os expliquem. Sendo assim, o significado de confusão para Deus-Pai pode ter acontecido por confusão dentro de um sistema de língua onde isso seria plausível ou ainda, e isso é mais revelador, pode significar que Deus-Pai só pode ser explicado na medida em que não o é, isto é: confusão.
            Deus-Pai está na origem da linguagem e todo idioma descende dele. Porém, os semitas, quando construíram Babel, por pecado quiseram inaugurar para si nome, linguagem e linhagem próprios e por violência colonial quiseram impôr sua razão ao mundo. Diante disso, Deus-Pai os impediu dando seu próprio nome por confusão, consequentemente confundindo todas as demais línguas, mas ao mesmo tempo requereu tradução entre estas e de si mesmo.           
            Esta tarefa impossível imposta por Deus constitui o segundo momento do livro. Este comando que requer a tradução de algo intraduzível se chama double bind. Nele, de um lado temos a Necessidade da tradução que reafirma a afinidade entre as línguas e busca, pela expansão da linguagem, um modo de visar na língua de chegada o sentido visado do texto original. De outro lado, há a Impossibilidade deste empreendimento e entre as limitações citadas pelo autor, temos: “como traduzir um texto escrito em diversas línguas ao mesmo tempo? Como ‘devolver’ o efeito de pluralidade? E se se traduz para diversas línguas ao mesmo tempo, chamar-se-á a isso traduzir?” (2002, p. 20) ou ainda: “como traduziríeis uma assinatura?” (2002, p.72).
            Mas o que se entende por tradução? Derrida faz referência a Jakobson, que em seu ensaio On Translation,  propõe três tipos de tradução: “A tradução intralingual [ou reformulação] interpreta signos lingüísticos por meio de outros signos da mesma língua [...] a tradução ‘propriamente dita’ [...] interlingual [...] interpreta signos lingüísticos por meio de uma outra língua [...] enfim a tradução intersemiótica ou transmutação que interpreta [...] signos lingüísticos por meio de sigmnos não lingüísticos.” (2002, p.23). No entanto, esta classificação toma o conceito de tradução como algo evidente.
            Para contrapôr esta naturalização da tradução, Derrida invoca Benjamin que assinala três precauções para entender a tarefa do tradutor. Primeira, o original não depende do receptor (autor, tradutor, leitor), pois a exigência de tradução pelo original já é em si um acontecimento e tanto faz se encontra ou não um tradutor que a satisfaça. Segunda, o original não possui um sentido a comunicar, pois antes o que se comunica é a comunicabilidade. Por fim, a tradução não deseja ser o original, mas apenas restituir o visado daquele no modo de visar desta. De um modo geral, Derrida complementa afirmando que o primeiro a se empenhar na dívida contraída pelo tradutor diante da exigência do original em ser traduzido é o próprio original e que esta dívida não empenha pessoas, mas textos.
            Por fim, Derrida comenta as metáforas utilizadas por Benjamin sobre a tradução, a saber: a) vitalista na maturação de uma semente; b) tangente que toca furtivamente o círculo; c) fragmentos de uma ânfora quebrada rearranjados na restituição de sua composição; d) a tradução não restitui a unidade orgânico do original, representada pela relação entre caroço e fruto e e) manto real que não separado do corpo do rei (original), mas que faz parte de sua realeza.
            Na terceira e última parte do livro, Derrida apresenta a lógica forense na compreensão da tradução. A partir da dicotomia Original/Tradução, a tradução é encarada obra original, não em seu conteúdo, mas enquanto expressão. Porém expressão não se contrapõe apenas à conteúdo, mas também à composição/forma, portanto a expressão original da tradução ocorre apenas lingüísticamente, sem tocar o conteúdo e a composição deste conteúdo. Derrida observa que, se por um lado tal abordagem é positiva por reconhecer originalidade à tradução, por outro é negativa ao diluir o que distingue o original da tradução. A implicação radical dessa consideração jurídica é que mesmo uma combinação entre diversas traduções preexistentes constitui obra original e possui novidade subjetiva.
            Ao final, Derrida conclui que o texto sagrado é o modelo e o ideal da tradução. Nele, linguagem e revelação se confundem, porque Babel é também o “mito da origem do mito, a metáfora da metáfora e a narrativa da narrativa” (2002, p.13), que se traduz de si para compreensão.


COMENTÁRIOS
- Metáfora é quando isto é aquilo. A tradução é uma metáfora. A história de Babel como a origem da linguagem  também é uma metáfora mítica, portanto é uma metáfora que traduz a origem das línguas cuidando que a própria tradução seja traduzida. No mais, se todo mito necessita de linguagem para existir, também o mito da origem dos mitos, das instituições, da linguagem e da razão.
- O que chamamos de língua no ocidente é chamado de lábio no oriente. Talvez não seja forçosa a analogia de que a língua está para o falo masculino e sua intenção em buscar e o lábio para o feminino e em se deixar encontrar. Tais concepções possuem diferentes pressuposições epistemológicas.
- “Estamos longe de saber o que quer dizer “vida” ou “família” no momento em que nos servimos desses valores familiares para falar de linguagem e de tradução; é, ao contrário, a partir de um pensamento da língua” (2002, p.31) E não seria este ponto de partida: língua, sobrevida... Valores familiares dos quais partimos?
- “[...] lei dessa forma.” (2002, p.36) Em Benjamin não há lei da forma, porque esta é passageira. Há apenas a lei do original, relativa à essência deste.
- “É a relação da vida com a sobrevida.” (2002, p.37) Discordo, porque a sobrevida da obra é a demanda do receptor ou tradutor e, assim como as manifestações de vida não dizem respeito à própria vida, assim também a sobrevida da obra não compromete sua vida ou essência.
- “[...] antes da linguagem, as línguas.” (2002, p.42) Mas nesse sentido haveria a língua da mímica, dos animais? Matemática? Musical? Não seria mais correto “antes do idioma, as línguas”? Ou antes das línguas, as linguagens.
- “A tarefa do tradutor, confinada no duelo das línguas (nunca mais de duas línguas)” (2202, p.62) E Finnegans Wake?
- Se todos falassem a mesma língua não haveria tradução. Mas, e quanto aos regionalismos? Aos Neologismos? À multiplicidade dentro de uma mesma língua? Seriam resolvidos por partirem de um mesmo sistema de língua? Se houvesse uma só língua teríamos transparência? Atingiríamos o essencial?
- E quanto à Adão que nomeou o mundo? E não devemos nos esquercer que o nome próprio é um nome de nomes. Por quê não há castigo divino para outros nomes? Qual o referente de um nome próprio se um mesmo nome se aplica a diferentes referenciais?

OBSERVAÇÃO/CONCLUSÃO FINAL
Existe tradução para Derrida? Penso que sim, na medida em que a tradução não deseja ser o original e em que o original não depende da tradução. A tradução seria o original no contexto da língua de chegada. Essas relativizações parecem minar a dicotomia Necessidade/Impossibilidade, Original/Tradução, no entanto, Derrida lamenta que o Direito acabe por arruinar o que distingue o original da tradução...

REGISTROS DOS DADOS BIBLIOGRÁFICOS
DERRIDA, Jacques. Torres de Babel. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2002.


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