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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

A PRESUNÇÃO DA CULTURA - ROY WAGNER

A PRESUNÇÃO DA CULTURA
ROY WAGNER

Fichado por Alisson Gebrim Krasota


Roy Wagner















TEMA 
Antropologia enquanto invenção de cultura.

CONTEÚDO FICHADO
"A antropologia estuda o fenômeno do homem - a mente do homem, seu corpo, sua evolução, origens, instrumentos, arte ou grupos, não simplesmente em si mesmos,mas como elementos ou aspectos de um padrão geral ou de um todo". (p.27)

Este fenômeno recebe o nome de cultura. Mas também se fala em culturas humanas, por exemplo, culturas da África e neste caso se refere `tradições histórico-geográficas específicas. Percebe-se que a palavra "cultura" está sujeita à ambiguidades.

Por um lado a cultura tem um sentido amplo enquanto fenômeno humano que implica a comparação com outras espécies vivas e elementos necessários à vida; por outro tem um sentido mais restrito em comparar a mais básica significância entre diferentes culturas.

Nesse sentido, "Assim como o epistemólogo, que considera o 'significado do significado', ou como o psicólogo, que pensa sobre como as pessoas pensam, o antropólogo é obrigado a incluir a si mesmo e seu próprio modo de vida em seu objeto de estudo, e investigar a si mesmo" (p.28), uma vez que ele se utiliza da própria cultura para pensar a cultura dos outros.

Decorre então três conceitos interdependentes de Wagner: objetividade absoluta, objetividade relativa e relatividade cultural. Comecemos pelo último, que diz que, sendo a cultura um fenômeno humano, uma cultura é equivalente à outra e, portanto, o pesquisador está em pé de igualdade com seu objeto de estudo. A objetividade absoluta é a total imparcialidade na compreensão de uma cultura, mas na medida em que partimos de nossos próprios pressupostos culturais para compreender outra cultura, a objetividade absoluta é impossível, uma vez que exigiria que não tivéssemos cultura nenhuma como ponto de partida e, portanto,significaria a ausência do fenômeno humano. No entanto, podemos tentar ser imparciais tanto quanto possível na medida em que nos tornamos conscientes de nossos pressupostos culturais, isto é a objetividade relativa.

O relativo em objetividade relativa e relatividade cultural remete à relação, isto é, a compreensão de outra cultura envolve a relação entre as duas e não a análise ou exame de uma pela outra, como pretende a objetividade absoluta.

Em relação ao método, se obervação participante ou antropologia de gabinete, se amostras quantitativas ou dados qualitativos, ocorre algo prático que é que o pesquisador é limitado por tempo e dinheiro. O critério é a "profundidade e abrangência de seu [do antropólogo] entendimento da cultura estudada". (p.30).

O antropólogo é o elo entre duas culturas, na medida em que mobiliza os conhecimentos de sua própria cultura e sua vivência em outra para formular esta outra e tomar consciência da sua própria. "Cultura', nesse sentido, traça um sinal de igualdade invisível entre o conhecedor (que vem a conhecer a si mesmo) e o conhecido (que constitui uma comunidade de conhecedores)" (p.30). 

Em outras palavras, o antropólogo não está consciente de seus pressupostos culturais até que entra em relação com outra cultura. A despeito do antropólogo pressupôr que a cultura alheia é uma coisa que está lá esperando que ele a descreva (o estudo ou representação de uma outra cultura não consiste na mera 'descrição' do objeto" (p.40), tanto a cultura do antropólogo quanto a cultura alheia só acontecem na relação. Primeiro o antropólogo percebe a cultura alheia como uma possibilidade humana, depois como sua possibilidade e, nisto, se dá conta de seus pressupostos culturais.

Nas palavras de Wagner: "a relação - por consistir em seus próprios atos e experiências - é mais 'real' do que as coisas que ela 'relaciona' [...] A invenção como um processo que ocorre de forma objetiva, por meio de observação e aprendizado, e não como uma espécie de livre fantasia [...] de início ele [o antropólogo] a [a cultura alheia] apreende como uma entidade distinta, uma maneira de fazer as coisas, e depois como uma maneira segundo a qual ele poderia fazer as coisas [...] Antes disso, poder-se-ia dizer, ele não tinha nenhuma cultura, já que a cultura em que crescemos nunca é realmente 'visível' [...] é apenas por meio do contraste experienciado que sua própria cultura se torna 'visível" (.30-31). "a cultura é tornada visível pelo choque cultural" (p.37)

Ainda sobre a invenção não ser uma livre fantasia é porque o "criador não pode estar consciente dessa intenção simbólica ao perfazer os detalhes de sua invenção, pois isso anularia o efeito norteador de seu 'controle' e otrnaria sua invenção autoconsciente. Um estudo antropológico [...] autoconsciente é aquele que é manipulado por seu autor até o ponto em que ele diz exatamente o que ele queria dizer, e exclui aquele tipo de extensão ou autotransformação que chamamos de 'aprendizado' ou 'expressão" (p.40). A invenção antropológica exige o externo, a relação e "é 'controlada' pela imagem de realidade e pela falta de consciência do criador sobre o fato de estar criando" (p.40).

Apesar do antropólogo saber que a cultura é diversa, ela só deixará de ser o monolítico acadêmico quando ele a experimentar. Apesar do antropólogo poder conhecer um pouco da cultura que irá estudar, ela só pode inventá-la começando do zero, porque a invenção exige a experiência própria do antropólogo junto a cultura que irá estudar.

No estágios iniciais de aproximação, é normal ocorrer um distanciamento do nativo em relação ao antropólogo  "e a coisa mais gentil que um pesquisador aflito pode fazer é ao menos imaginar que seus anfitriões estejam sendo corteses" (p.32). Mas o simples fato da convivência humana gera dependências, que devem ser aprofundadas em amizade se não se deseja passar por idiota. Mas na medida em que se avança para a amizade, é comum uma não-correspondência de expectativas e um sentimento de inadequação. O choque cultural torna visível a cultura do antropólogo, ele se dá conta de que depende da participação dos outros em sua vida e da participação dele na vida dos outros e "nosso sucesso e a efetividade de nossa condição de pessoas se baseiam nessa participação e na habilidade de manter a competência controladora na comunicação com os outros. O choque cultural é uma perda do eu [...]" (p.34) e uma crítica à nossa cultura (p.40)

Também a comunidade precisa controlar o antropólogo que desembesta a fazer perguntas e que pode ser visto como ingênuo ou perigoso. Porém, a solução pode ser resolvida na capacidade do antropólogo controlar seu choque cultural e se deixar domesticar pelos nativos, e nisto difere da postura elitista dos missionários. Esta ansiedade do antropólogo em aprender pode ser reduzida na medida em que percebe que está também objetivando a cultura, mas "visto que a objetificação ocorre ao mesmo tempo que o aprendizado, poder-se-ia igualmente dizer que o pesquisador de campo está 'inventando' a cultura". (.35).

Mas o antropólogo não aprende a nova cultura como uma criança ou como o nativo, porque ele aprende como adulto com sua própria cultura e, portanto, aprenderá a cultura alheia fazendo esforços "para produzir significado no âmbito de sua própria cultura [...] como alguém que está simultaneamente envolvido em seu próprio mundo de significados, e esses significados também farão parte" (p.36).

"Se a cultura fosse uma 'coisa' absoluta, objetiva, 'aprender' uma cultura se daria da mesma forma para todas as pessoas, tanto nativos como forasteiros, tanto adultos como crianças. Mas as pessoas têm todo o tipo de predisposições e inclinações, e a noção de cultura como entidade objetiva, inflexível, só pode ser útil como uma espécie de 'muleta' para auxiliar o antropólogo em sua invenção e entendimento" (p.36)

"A relação que o antropólogo constrói entre duas culturas - a qual, por sua vez, objetifica essas culturas e em consequência as 'cria' para ele - emerge precisamente desse seu ato de 'invenção', do uso que faz de significados por ele conhecidos ao construir uma representação compreensível de seu objeto de estudo. O resultado é uma analogia, ou um conjunto de analogias, que 'traduz' um grupo de significados básicos em um outro, e pode-se dizer que essas analogias participam ao mesmo tempo de ambos os sistemas de significados,da mesma maneira que seu criador. Eia a mais simples,mais básica e mais importante das considerações a fazer: o antropólogo não pode simplesmente 'aprender' uma nova cultura e situá-la ao lado daquela que ele já conhece; deve antes 'assumi-la' de modo a experimentar uma transformação de seu próprio universo. Da perspectiva do trabalho de campo, 'virar nativo' é tão inútil quanto permanecer no aeroporto ou no hotel fabricando histórias sobre os nativos: em nenhum dos casos haverá qualquer possibilidade de uma significativa relação ( e invenção) de culturas." (p.37). Portanto, a cultura deixa de ser uma entidade e passa mais a ser "um constructo explanatório" (p.37). 

O antropólogo participa de dois universos de significado e "se mantém a  certa distância dos [...] a fim de ganhar perspectiva" (p.38) Para sua própria sociedade ele virou nativo, para os nativos ele é um espião, mas o pior engano é para o próprio antropólogo que imaginou transcender.

"A antropologia é o estudo do homem 'como se' houvesse cultura [...] É incidental questionar se as culturas existem. Elas existem em razão do fato de terem sido inventadas e em razão da efetividade dessa invenção. [...] Um antropólogo denomina a situação que ele está estudando como 'cultura' antes de mais nada para poder compreendê-la em termos familiares, para saber lidar com sua experiência e controlá-la" (p.39). Essa invenção não se dá apenas no trabalho de campo, mas onde quer que haja convenções estrangeiras com a experiência do sujeito. Na medida em se se faz o estranho familiar simultaneamente se faz o familiar um pouco estranho.

Assim, as noções culturais do antropólogo são usadas em analogias extensivas "para catapultar sua compreensão para além dos limites impostos por pontos de vista prévios". (p.41) "Cria-se o objeto no ato de tentar representá-lo" (p.41)

"O estudo da cultura é na verdade nossa cultura: opera por meio de nossas formas, cria em nossos termos, toma emprestados nossas palavras e conceitos para elaborar significados e nos recria mediante nossos esforços".  

COMENTÁRIOS
Geertz contribuiu chamando a atenção para o fato de que somos todos nativos. Wagner vai qualitativamente adiante, observando que somos todos antropólogos. A igualdade epistemológica que coloca antropólogo e nativo como inventores de cultura é admirável ética e teoricamente. 

Outro ponto interessante  é tomar a cultura para além dos processos e produtos humanos, mas enquanto uma ferramenta inventada para compreensão e comunicação. Mais do que significados compartilhados, a cultura como constructo explanatório, como uma invenção efetiva capaz de dar a conhecer a si mesmo e ao outro através não só através da relação experienciada, mas da presunção da cultura.

Acho que faltou maior rigor quanto à noção de criatividade na invenção, pois me parece que a extensão analógica seja apenas uma parte.

Parece-me ainda que um diálogo rigoroso com teoria semiótica seria produtivo.

Outra coisa é que entre o controle da invenção, que exige a relação, a comunicação, portanto a inteligibilidade, há a inconsciência de se estar criando. Se a inconsciência se refere à natureza da relação e aos imprevistos dela e das associações analógicas e extensivas, tudo bem. Mas se se referir à noção de que cultura funciona como constructo explanatório na medida em que sua presunção cria a ilusão de objetividade,a obra de Wagner seria um atentado à esta inconsciência que está a serviço do controle. 

Uma última coisa é que o contato cultural fez com que os nativos aprendessem não só nossa cultura como o conceito de cultura e o utilizassem nas reivindicações de patrimônio, como aponta o conceito de cultura com aspas de Manuela Carneiro da Cunha e, nesse sentido, a presunção da cultura não é assim tão presunçosa.  

OBSERVAÇÃO/CONCLUSÃO FINAL
O antropólogo pressupõe que todo ser humano possui cultura e ao designar os fenômenos humanos como culturais possibilita que a cultura funcione antes de tudo como instrumento para compreensão e comunicação entre as pessoas e povos.

A invenção da cultura ocorre porque a cultura não é uma coisa fixa e monolítica que aguarda ser descrita, analisada e examinada, mas ela antes de ser qualquer coisa, resulta da relação do antropólogo, que possui sua própria cultura, com uma cultura alheia, que lhe impõe um "choque cultural" que lhe desperta para a própria cultura e para o uso criativo desta para, por extensões analógicas, compreender a cultura alheia que vivencia, criando assim a cultura alheia na medida em que a formula e representa, criando a própria cultura na medida em que esta relação a tornou visível e criando a cultura abstrata, que desde o início, em sua pressuposição, lhe serviu de instrumento, além de conceito.

BIBLIOGRAFIA
WAGNER, Roy. A presunção da cultura. In.: A invenção da cultura. São Paulo: Cosac Naify, 2010. p.27-46

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