Orientações do blog

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domingo, 25 de janeiro de 2015

Bruno Latour - Primeira fonte de incerteza: não há grupos, apenas formação de grupos

PRIMEIRA FONTE DE INCERTEZA: NÃO HÁ GRUPOS, APENAS FORMAÇÃO DE GRUPOS
BRUNO LATOUR

Fichado por Alisson Gebrim Krasota

Paula Brasileiro





















TEMA 
Teoria Ator-Rede de Bruno Latour.

CONTEÚDO FICHADO
O autor contrapõe a recomendação dos teóricos sociais, que buscam "reconhecer quais ingredientes já existem na sociedade" (p.50) para estabelecer a "existência inquestionável das fronteiras" entre um "tipo real" e "conjuntos falsos" e o procedimento dos próprios atores na formação e desmantelamento de grupos. 

Nas palavras de Latour: "A primeira fonte de incerteza com a qual devemos aprender é que não há grupo relevante ao qual possa ser atribuído o poder de compor agregados sociais, e não há componente estabelecido a ser utilizado como ponto de partida incontroverso". (p.51-52).

Não é dever do cientista social estabilizar determinando o grupo que se irá investigar, seja em nome da "necessidade de restringir" por "clareza, conveniência ou racionalidade", seja em nome do "direito que tem o cientista de definir seu objeto". Ao contrário, o ponto de partida da investigação deve ser justamente as controvérsias, inclusive "as dos cientistas sociais em torno da composição do mundo social".

Diferentemente dos cientistas sociais que procuram criar conceitos através de um vocabulário preciso e sofisticado, o vocabulário da ANT (Actor Network Theory- Teoria do Ator-Rede) é geral e banal a fim de não confundir a metalinguagem científica com a metalinguagem dos atores. A "infralinguagem" da ANT permite o deslocamento de um quadro de referência à outro, além de privilegiar o vocabulário dos atores em detrimento do jargão dos cientistas sociais.

A posição absoluta arbitrariamente estabelecida dos agregados sociais é muda e invisível, enquanto as controvérsias deixam traços que geram muito mais dados e podem ser rastreados. Segundo Latour, em qualquer controvérsia alguns itens estarão presentes:

1 - Grupos sempre dispõem de porta-vozes ("às vezes são bastante tagarelas"). Nas palavras de Latour: "[...] todos necessitam de pessoas definindo quem são, o que deveriam ser e o que foram. Estão sempre em ação, justificando a existência do grupo, invocando regras e precedentes - e, como veremos, opondo uma definição às demais. Os grupos não são coisas silenciosas, mas o produto provisório de um rumor constante feito por milhões de vozes contraditórias sobre o que vem a ser um grupo e quem pertence a ele" (p.55). 

2 - Para cada grupo há uma lista de antigrupos. Este delineamento não é feito apenas pelos cientistas sociais, mas primeiro pelos próprios atores que oferecem uma sociologia aos sociólogos. Costumava-se dizer que os atores desconheciam o contexto em que estavam inseridos e que possuíam apenas uma versão parcial de sua realidade, enquanto o cientista social possuiria a visão do todo. Mas a reflexividade do cientista em contraposição à ação que seria inconsciente/alienada do ator é antes uma ilusão epistemológica para proteger a objetividade do sociólogo ou ainda a irrelevância de suas questões frente às preocupações sérias dos atores.

3 - O porta-voz do grupo procura definir o grupo, fixá-lo, demarcá-lo. As invocações para isso são várias: tradição, lei, natureza, "essencialismo estratégico", sangue e terra, tradição folclórica etc. até que o grupo se torne inquestionável.

4 - Entre os porta-vozes de um grupo, também o cientista social faz parte. "Não se trata de nenhuma 'limitação inerente' à disciplina, devida ao fato de os sociólogos serem também 'membros sociais' e terem dificuldade de 'romper' os laços com suas próprias 'categorias sociais'. Isso ocorre apenas porque estão lado a lado com aqueles que estudam, fazendo exatamente o mesmo trabalho e participando da mesma função de traçar vínculos sociais, embora com ferramentas diferentes e com diferentes vocações profissionais" (p.58). Trata-se de conexões sociais ao invés de unidades de análise (classes, indivíduos, nações, trajetórias de vida, papéis sociais, redes sociais etc.).

Latour contrasta os sociólogos do social com os sociólogos de associações/ANT. Os sociólogos do social preferem uma definição ostensiva dos agregados sociais, isto é "gostam de apelar para a 'inércia social' (p.59), estabilidades de longo prazo e larga escala. Já os sociólogos de associação preferem uma definição performativa, "Que os atores façam o trabalho por nós! Não definamos para eles o que compõe o social!" (p.61) porque nem a sociedade e nem o social existem a priori. Justamente porque os sociólogos do social consideram o mundo social como a medida comum, comparam sem maiores problemas "Deus" e "mercado". Isto é,"tais termos designam os muitos avatares que a mesma ordem social pode assumir" (p.63), mas antes isto deveria significar que "devemos levar a sério as diferenças palpáveis e, às vezes, estranhamente pequenas entre as muitas maneiras pelas quais as pessoas 'realizam o social" (p.62).

Outra diferença diz respeito à intermediários e mediadores. "Um intermediário, em meu léxico, é aquilo que transporta significado ou força sem transformá-los: definir o que entra já define o que sai" (p.65), enquanto que "os mediadores transformam,traduzem,distorcem e modificam o significado ou os elementos que supostamente veiculam" (p.65). Na escola do social as ferramentas analíticas são encaradas como intermediários e na escola das associações ela é encarada como mediador.

"Resumamos [...] os sociólogos do social acreditam em um tipo de agregados sociais, poucos mediadores e muitos intermediários; para a ANT, não há um tipo preferível de agregados sociais, existem incontáveis mediadores e, quando estes são transformados em fiéis intermediários, não temos aí regra, mas uma exceção rara que deve ser explicada por algum trabalho extra" (p.67). 

Um dos motivos que Latour apresenta para o descarte das explicações dos atores em benefício de estabilidades é porque a sociologia que surgiu desde o século XIX esteve comprometida com a engenharia social, e a tarefa de modernização exigia que o sociólogo bancasse o juiz e legislador.

"Sem essa pesada obrigação de bancar o legislador; o sociólogo não teria limitado a primeira fonte óbvia de incerteza [o agregado social como ponto de partida], rompendo todos os laços com o labor explícito e reflexivo dos métodos dos próprios atores. Os antropólogos, ocupando-se de pré-modernos e não tão pressionados a imitar as ciências naturais, foram mais felizes e permitiram que seus atores criassem um mundo bem mais rico. De várias maneiras, a ANT é simplesmente uma tentativa de dar tanto espaço aos membros da sociedade contemporânea para definirem a si próprios quanto o oferecido pelos etnógrafos" (p.68)

"Os cientistas sociais transformaram o mundo de várias maneiras. Mas o que se deve fazer é interpretá-lo". (p.69).


COMENTÁRIOS
Achei um tanto obscuro a argumentação de que ao usar um vocabulário prosaico o cientista estaria menos propenso a confundir a metalinguagem científica com a nativa.

Achei interessante a caricatura dos sociólogos do social que começam por grupos em razão da necessidade de se começar, do cientista poder escolher seu objeto e de que, no final das contas, o começo, ao fazer parte do substrato social, é apenas um intermediário para o fim. Porém, fiquei pensando no caso de Mauss, que faz um começo heurístico para descontruí-lo na medida em que faz a pesquisa.

Achei ainda um paralelo entre a recomendação em começar por controversas e a recomendação de Bourdieu em verificar problemáticas

"Embora os homens cultivados de uma determinada época possam discordar a respeito das questões que discutem, pelo menos estão de acordo para discutir certas questões. É sobretudo através das problemáticas obrigatórias nas quais e pelas quais um pensador reflete que ele passa a pertencer a sua época podendo-se situá-lo e datá-lo. Assim como os linguistas recorrem ao critério da intercompreensão a fim de determinar as áreas linguísticas, também poder-se-ia determinar áreas e gerações intelectuais e culturais através de um levantamento dos conjuntos de questões obrigatórias que definem o campo cultural de uma época" (BOURDIEU, Pierre. Sistemas de ensino e sistemas de pensamento. In.: A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2007. p. 207).

No entanto, o paralelo cessa aqui, porque na sociologia do social de Bourdieu a assimetria entre cientista e agente é total no que tange o sujeito conhecedor do social, ainda que Bourdieu procure simetrizar as relações buscando diminuir a violência simbólica, sua sociologia está baseada em jargões conceituais e no pressuposto de que o agente ignora o sentido de suas ações dentro campo social em que se encontra e no habitus naturalizado em si. 

OBSERVAÇÃO/CONCLUSÃO FINAL
Penso que este texto é mais indicado como introdução à obra de Bruno Latour do que o seu clássico Jamais Fomos Modernos, porque seu princípio de simetrização é aqui exposto de forma mais didática e sintética, ainda que não em todo seu alcance. 

É realmente louvável abandonar os pressuposto de que os atores seriam largamente inconscientes da dinâmica social e de que somente o cientista social ilustrado possuiria a clarividência necessária para restituir o sentido das ações dos agentes. Simetrizar o cientista social e o ator dialogando seus conceitos é um grande avanço!

Outro ponto interessante é a inversão dos pontos de partida e chegada. Os grupos não são pontos de partida, mas pontos de chegada. Mas esta recomendação é acompanhada das indicações metodológicas de como fazer isso: começar por controversas identificando porta-vozes, grupos de oposição, uma definição de si e a inclusão das ferramentas analíticas como modificadores.  

BIBLIOGRAFIA
LATOUR, Bruno. Primeira fonte de incerteza: não há grupos, apenas formação de grupos. In.: Reagregando o social: uma introdução à teoria do ator-rede. Salvador: EDUFBA, EDUSC, 2012.

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