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domingo, 1 de fevereiro de 2015

A cultura como criatividade - Roy Wagner

A CULTURA COMO CRIATIVIDADE
ROY WAGNER

Fichado por Alisson Gebrim Krasota

Roy Wagner














TEMA 
A ambiguidade da cultura.

CONTEÚDO FICHADO
Wagner fez trabalho de campo entre os Daribi da Nova Guiné. Conta que para aplacar o choque cultural, buscou estabelecer uma rotina que consistia em entrevistas, observações e tomadas de nota. Sua intenção era produzir um "bom trabalho" segundo a concepção de trabalho como vocação. Nas palavras irônicas de Wagner a "definição geral do trabalho do antropólogo (por mais ilusória que possa ser): a de que atuamos sobre os nativos de maneira a produzir etnografias" (p.50). Experiências materializadas numa etnografia que será negociada para obtenção de um título ou publicação de um livro, por exemplo.

Sua presença era um problema classificatório para os nativos. Seria ele "do governo", "missionário" ou "doutor"? Até que concluíram que se tratava de um storimasta (story master, "contador de histórias"), o que não era uma profissão muito plausível para eles.

No entanto, um dado biográfico facilitou seu acesso à algumas informações de seu interesse: "Um informante de meia-idade, que passava várias de suas horas ociosas lamuriando seu estado celibatário [...] apiedou-se de mim e revelou-me o mito de origem local 'porque você também não tem uma esposa, e tenho pena de você" (p.51-52). Não ser casado entre os Daribi é uma condição penosa à própria sobrevivência, uma vez que os homens precisam arranjar alimento com suas mães e cunhados. Wagner argumentou que era solteiro porque preferia se dedicar ao trabalho antes de casar, o que levou os nativos a associarem seu trabalho com o celibato.

Em suma, a preocupação dos nativos com sua ocupação e estado civil foi respondida com sua profissão em sentido vocacional. Mas isto levava os nativos a novas questões, por exemplo se as profissões constituíam famílias, se era possível pessoas de profissão diferente casarem entre si etc. Wagner diz: "Eu me via continuamente desconcertado, e às vezes incomodado, pela preocupação de meus amigos com aquilo que eu tomava como assuntos secundários - meus arranjos domésticos e meu estado conjugal" (p.52), mas completa com senso de simetria "E, afinal de contas, se eu podia lhes perguntar com que tipo de gente eles podiam se casar, era justo que eles pudessem me perguntar com que tipo de gente eu podia me casar.)" (p.53).

No entanto, se ambos queriam saber sobre a vida doméstica um do outro, os enganos nativos eram enganos diferentes dos enganos de Wagner e não se tratava de um problema de tradução para um mesmo tópico, mas da invenção da cultura de Wagner pelos nativos e da invenção da cultura Daribi por Wagner. Nas palavras de Wagner: "O equívoco deles a meu respeito não era o mesmo que meu equívoco acerca deles, de modo que a diferença entre nossas respectivas interpretações não poderia ser descartada com base na dissimilaridade linguística ou nas dificuldades de comunicação" (p.53).

A AMBIGUIDADE DA "CULTURA"
A palavra "cultura" deriva do verbo latino colere que significa cultivar, cujo significado esteve associado ao cultivo do solo. Entre os séculos XII e XV, cultura, em inglês, significava "campo arado". Depois passou a significar a domesticação de um determinado cultivo. A partir do século XVIII, a palavra passou a ser utilizada para se referir a pessoas refinadas. Este último uso que coincide com a cultura erudita ou Cultura com "c" maiúsculo, é nomeado por Wagner como cultura "sala de ópera". A antropologia democratiza o conceito estendendo-o para o coletivo humano, o que evoca a noção oitocentista de Locke ou Rousseau do "contrato social", isto é, a autodomesticação dos instintos. 

A partir de então, centros culturais são criados institucionalizando a cultura. Nas palavras de Wagner: "As instituições culturais não apenas preservam e protegem os resultados do refinamento do homem: também o sustentam e propiciam sua continuidade" (p.55). Ao selecionar o cerne da cultura, que seria a ciência, arte e tecnologia, obtém-se a noção de "civilização". Ainda, segundo Wagner: "A produtividade ou criatividade de nossa cultura é definida pela aplicação, manipulação, reatualização ou extensão dessas técnicas e descobertas. Qualquer tipo de trabalho, seja ele inovador ou simplesmente "produtivo", como se diz, adquire sentido em relação a essa soma cultural, que constitui seu contexto de significação" (p.56). Por constituir o contexto de significação, a cultura "sala de ópera" é tão valorizada em nossa cultura: "a 'cultura' no sentido mais restrito consiste em um precedente histórico e normativo para a cultura como um todo: ela encarna um ideal de refinamento humano" (p.57). 

No que diz respeito à apropriação dos dados etnográficos pelos museus: "Os postes totêmicos, as múmias egípcias, as pontas de flechas e outras relíquias em nossos museus são 'cultura' em dois sentidos: são simultaneamente produtos de seus criadores e produtos da antropologia [...] O estudo dos 'primitivos' tornou-se uma função de nossa invenção do passado" (p.63).

Agora, se por um lado o museu se apropriou dos dados etnográficos, o evolucionismo, com a noção de sobrevivência, faz do mundo um museu a céu aberto.

Mas se o conceito antropológico de cultura é a extensão do conceito "sala de ópera", também é certo dizer que este conceito depende do conceito amplo de cultura, que acabou ensejando conceitos que dialogam e competem com o de cultura erudita, noções tais como "subcultura" e "contracultura".

"O trabalho do antropólogo também faz isso: utiliza-se de um fundo comum de habilidades e ideias que podem ser adquiridas por 'educação' e contribui para uma totalidade chamada 'a literatura antropológica" (p.56). "Assim como o dinheiro representa o padrão público de troca, a educação define um certo pré-requisito para a participação" (p.57). Mas enquanto "a 'Cultura' emerge como uma acumulação [...] de invenções grandiosas e conquistas notáveis", as relações interpessoais ficam à margem dos relatos históricos.

No entanto, para que a antropologia não se transforme "em um museu de cera de curiosidades, de fósseis reconstruídos, de grandes momentos de histórias imaginadas" (p.62) é preciso ter em mente que a cultura não é um objeto, mas um constructo que ajuda o entendimento de outro povo que não concebe a noção de cultura para si mesmos.

Em suma, as instituições culturais consagram a cultura erudita que, por sua vez, oferece o pano de fundo para a inovação cultural. Em contrapartida, as relações interpessoais são relegadas ao segundo plano. Entre os Daribi se dá o contrário. A "produção' nessas sociedades corresponde à simbolização mesmo das mais íntimas relações pessoais" (p.59). 

Para nós, o dinheiro é público e a família é privada. Se o dinheiro é para sustentar a família, "as relações no interior da família são simbolizadas em termos de amor." (p.57). "O amor é tradicionalmente aquilo que 'o dinheiro não pode comprar', e o dever, algo que se supõe estar acima de considerações pessoais" (p.57). Por isso, interpretamos a compra de esposas entre os Daribi como se eles fossem materialistas. Mas, segundo Wagner, nessas sociedades o dinheiro não é importante e sim a mulher que é valiosa("as pessoas é que são importantes,não a economia e a mecânica de sua transferência" (p.65)). A divisão sexual das tarefas faz do casamento algo essencial para a sobrevivência, pois a família é autosustentável e não a ser sustentada: "A demanda não é por produtos em si mesmos, ou pelo dinheiro para comprar produtos, mas por produtores; uma vez que todos os aspectos importantes da subsistência cabem à família, a preocupação principal passa a ser constituir e manter uma família" (p.59). Isso consitui uma inversão de nossa cultura que tem a família como pano de fundo no foco da produção.

"A lógica de uma sociedade em que 'cultura' é algo consciente e deliberado, em que a vida serve a algum propósito, em vez do inverso, em que se requer que cada fato ou proposição tenha uma razão, cria um efeito estranhamente surrealista quando aplicada a povos tribais. De fato, tais 'funções', 'fatos sociais' e 'estruturas lógicas da mente' são tão pouco críveis em nossas experiências in loco com os nativos que forçosamente somos levados a considerar que as 'razões' e os 'propósitos' teoricamente aduzidos são propriedades universais subliminares, subconsciente ou implícitos [...] a mudança ou variação só pode ser abordada negativamente, como uma espécie de entropia, estática ou 'ruído" (p.64-65)

Esses reducionismos à estrutura, ao biológico, à economia etc. são assim avaliados por Wagner: "Uma antropologia que se recusa a aceitar a universalidade da mediação, que reduz o significado a crença, dogma e certeza, será levada à armadilha de ter de acreditar ou nos significados nativos ou nos nossos próprios. A primeira alternativa, dizem-nos, é supersticiosa e não objetiva; a segunda, de acordo com alguns é 'ciência'. E, todavia, esse tipo de ciência pode facilmente degenerar em uma forma de discurso indireto, em um modo de fazer afirmações provocativas traduzindo idiomas em fatos e superexoticizando os objetos de pesquisa em prol do efeito simbólico.(p.65-66). Em suma, assim como somos capazes de ter ambiguidades em nossos conceitos, também os nativos não devem ser interpretados literalmente, reduzindo-os às nossas ideologias. 

Um exemplo apontado no texto diz respeito ao culto da carga. O contato do imperialismo europeu com os Daribi é emblemático na comparação entre a noção de carga e cultura: "olhamos para a carga dos nativos, suas técnicas e artefatos, e a chamamos de 'cultura', ao passo que eles olham para nossa cultura e a chamam de 'carga" (p.68), pois para os Daribi: "a carga é de fato um antissímboloo da 'cultura': ela metaforiza as ordens estéreis da técnica e da produção autossatisfatória como vida e relação humana, assim como a 'cultura' faz o inverso" (p.68). Enfim, "o fato de que 'carga' e 'cultura' metaforizam a mesma relação intersocietária, conquanto o façam em direções opostas, por assim dizer, torna-as efetivamente metaforizações uma da outra. 'Cultura' estende a significância técnica, do modo e do artefato para o pensamento e a relação humana; 'carga' estende a significância da produção mútua e das relações humanas para os artefatos manufaturados: cada conceito usa o viés extensivo do outro como seu símbolo. Assim, é fácil para os ocidentais 'literalizar' o significado de 'carga' esupor que queira dizer simplesmente produtos manufaturados" (p. 69).

Quando Yali, um daribi, é levado a Port Moresby, ela fica estarrecido em tomar conhecimento de que a nova política encorajava os costumes locais e de que nem todos os europeus acreditavamno mito de Adão e Eva. Viu ainda um totemismo na história evolutiva do ser humano, "para a preservação de relações pessoais" (p.70). Ao voltar para Madang, sua terra natal, faz um revival intenso de seus costumes. Segundo Wagner "À maneira de revivalismos similares em outras partes do mundo, esse não dizia respeito à 'cultura' em si mesma, mas à cultura como um símbolo de outra coisa. Embora a identidade estivesse envolvida, como sempre está quando a 'cultura' é assumida de modo autoconsciente" (p.71). Ainda segundo Wagner não se trata de reduzir esta manifestação como uma resposta anticolonial "porque explicações em termos de perturbações e injustiças rebaixam as realizações humanas ao nível de corretivos e reduzem a vida a um modelo de equilíbrio" (p.71).

Por fim, conclui Wagner: "É fundamental para para uma definição do homem que ele continuamente invista suas ideias, buscando equivalentes externos que não apenas as articulem, mas também as transformem sutilmente no processo [...] O homem é o xamã de seus significados. A ambiguidade da cultura, e também da carga, coincide com o poder que tal conceito tem nas mãos de seus intérpretes, os quais empregam os pontos de analogia para manejar e controlar os aspectos paradoxais" (p.72).

COMENTÁRIOS
Se por um lado o autor pressupõe que apenas os ocidentais manejam o conceito de cultura, e os ocidentais pressupõem que, sendo a cultura um fenômeno humano, todos os povos possuem cultura segundo o conceito ocidental de cultura e isto, de acordo com Wagner, é condição para a mediação, comunicação e entendimento do outro, na medida em que, em função do choque cultural, podemos estender nossas noções através da analogia e metáfora e inventar a cultura do outro, controlada pela imagem de realidade, comunicação e inconsciência dos efeitos concretos dessa relação, por outro, Wagner deixa entrever não só os conceitos de cultura etimológico, erudito, antropológico, institucional, subcultura e contracultura, reducionismos culturais e cultura como instrumento, mas também a "cultura entre aspas" proposta por Manuela Carneiro da Cunha, quando Yale se vale da sua interpretação da nossa noção de cultura para reavivar as suas tradições atualizando-as. 

Assim como nós somos capazes de inventar cultura também os nativos o são. Porém, a simetria, apesar de ser prenunciada além disso, para por aqui, pois apenas nós estamos ficando cientes dessa simetrização e a "antropologia reversa" é descartada sob suspeita de etnocentrismo, uma vez que "a preocupação ideológica desses povos não lhes impõe nenhuma obrigação de se especializar dessa maneira" (p.67).


OBSERVAÇÃO/CONCLUSÃO FINAL
Continua

BIBLIOGRAFIA
WAGNER, Roy. A cultura como criatividade. In.: A invenção da cultura. São Paulo: Cosac Naify, 2010. p.49 - 72.

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